Justiça dos EUA cita “Gabi Gol” e “Lara Croft” para detalhar rede brasileira acusada de lavar dinheiro do PCC

A Justiça dos EUA detalhou a atuação de brasileiros identificados pelos apelidos "Gabi Gol" e "Lara Croft" em denúncia sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Entenda quem são os investigados, como o esquema teria funcionado e o impacto das sanções.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado de ilustração com a sigla PCC, representando as sanções americanas contra brasileiros acusados de integrar esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção.
Sanções anunciadas pelos Estados Unidos contra brasileiros investigados por ligação com o PCC ampliam o cerco financeiro à organização após denúncia apresentada pela Justiça Federal da Flórida.(Imagem:Editorial).

Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefane Nunes de Oliveirasancionados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos na quarta-feira (1º) por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), já haviam sido denunciados pela Justiça Federal da Flórida em dezembro de 2025. Na acusação, eles aparecem identificados pelos apelidos “Japa” e “Lara Croft”, ao lado de outros brasileiros como “Gabi Gol” e “Boa Sorte”, apontados como integrantes de uma suposta rede internacional de lavagem de dinheiro.

Segundo a denúncia, a organização teria movimentado pelo menos US$ 30 milhões entre dezembro de 2022 e janeiro de 2025. Os investigadores afirmam que o grupo distribuía recursos provenientes do tráfico internacional de drogas em contas bancárias de diferentes estados americanos para ocultar a origem do dinheiro antes de repassá-lo a integrantes da organização criminosa.

O uso dos apelidos não é apenas um detalhe da investigação. Nos processos criminais federais dos Estados Unidos, essas identificações costumam aparecer quando são utilizadas pelos próprios investigados ou surgem em mensagens, registros financeiros, interceptações e depoimentos, permitindo ao Ministério Público relacionar cada acusado às provas reunidas durante a apuração e às funções atribuídas a cada integrante da suposta organização.

A denúncia ajuda a explicar por que Shimada e Stella passaram a integrar a lista de sanções do governo americano. Além do processo criminal, os dois passaram a sofrer restrições financeiras impostas pelos Estados Unidos, ampliando o cerco contra operadores que, segundo as autoridades americanas, sustentariam a circulação internacional de recursos ligados ao PCC.

Justiça dos EUA PCC: quem são os brasileiros citados na denúncia

Além de Shimada e Stella Stefane, a denúncia menciona outros brasileiros residentes nos Estados Unidos que, segundo os investigadores, participaram da operação financeira atribuída ao grupo.

Os principais nomes citados são:

  • Gabriel Cezar Menezes, identificado como “Gabi Gol”;
  • Ygor Fokin Saviolli, conhecido como “Boa Sorte”;
  • João Andrade;
  • Leandro de Ávila.

Segundo a acusação, os quatro foram presos na Flórida em janeiro deste ano. O documento afirma que eles distribuíam recursos de origem ilícita em contas de diferentes bancos americanos para dificultar o rastreamento do dinheiro antes de remetê-lo a integrantes da organização criminosa.

A investigação também aponta como integrantes da suposta estrutura Lucca Perez Costa, Leonardo Meira Gomes, Omar Aliperti de Mello Correa e Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, todos denunciados por conspiração para lavagem de dinheiro com base na Seção 1956 do Título 18 do Código dos Estados Unidos.

Como funcionava o esquema investigado

De acordo com a denúncia, o dinheiro teria origem no tráfico internacional de drogas comandado pelo traficante mexicano Manuel Garcua-Urrea, conhecido como “Manny” ou apenas “M”.

Os promotores afirmam que a organização utilizava depósitos em diferentes contas bancárias espalhadas pelos Estados Unidos para ocultar a origem dos recursos antes de redistribuí-los aos destinatários finais.

Além do condado de Miami, os investigadores identificaram movimentações financeiras em Rochester, Chicago, Cleveland, Atlanta, Minneapolis, Los Angeles, Denver, Seattle, Houston e Kansas CitySegundo a acusação, essa dispersão geográfica demonstra uma operação com atuação em diversos estados americanos, dificultando o rastreamento dos recursos pelas autoridades financeiras. As acusações, entretanto, ainda serão analisadas ao longo do processo judicial.

Sanções ampliam o cerco financeiro contra operadores ligados ao PCC

Ao anunciar as sanções na quarta-feira (1º), o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que Victor Shimada e Stella Stefane atuavam como “elo fundamental” entre operadores financeiros e integrantes do PCC em território americano.

Na prática, as sanções bloqueiam bens e interesses que estejam sob jurisdição dos Estados Unidos e proíbem cidadãos e empresas americanas de realizar transações com os alvos incluídos na lista, ampliando o isolamento financeiro dos investigados enquanto as medidas permanecerem em vigor.

O comunicado também atribui a Shimada participação em outros crimes financeiros além da suposta lavagem de dinheiro relacionada ao tráfico de drogas. Segundo o Tesouro, uma de suas empresas, a Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda., aparece em investigações brasileiras sobre o caso Vai de Bet, envolvendo o contrato de patrocínio ao Sport Club Corinthians Paulista. A empresa é investigada por suposto uso em movimentações financeiras ligadas ao esquema, apuração distinta da denúncia apresentada pela Justiça americana.

O avanço dessas medidas ocorre poucas semanas após o governo Donald Trump classificar oficialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). A mudança ampliou os instrumentos jurídicos disponíveis às autoridades americanas para rastrear patrimônio, bloquear ativos e responsabilizar pessoas ou empresas acusadas de fornecer apoio financeiro às duas facções fora do Brasil.

Ao reunir a denúncia criminal, as sanções econômicas e a nova classificação jurídica do PCC, os Estados Unidos passaram a concentrar a pressão não apenas sobre integrantes das facções, mas também sobre operadores financeiros suspeitos de sustentar sua atuação internacional. A estratégia amplia o alcance das investigações além do território americano e reforça o foco no desmonte das redes responsáveis pela circulação de recursos atribuídos ao crime organizado.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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