A Victory Trading Intermediação de Negócios, uma das empresas sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por suposto envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), recebeu R$ 514,5 milhões da Wave Intermediações entre setembro de 2023 e setembro de 2024. A empresa responsável pelos repasses é apontada pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS como integrante da chamada rede Arpar, estrutura investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro atribuída ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Os documentos da CPMI mostram que os recursos circularam durante um período de um ano e colocam a Victory no centro de um fluxo financeiro que passou a reunir duas investigações distintas: a apuração brasileira sobre a rede de lavagem ligada ao esquema do INSS e as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos contra pessoas e empresas suspeitas de atuar em benefício do PCC. O volume das transferências chamou a atenção dos investigadores, sobretudo porque envolveu empresas que passaram a ser alvo de diferentes órgãos de controle.
Mais do que o montante movimentado, os relatórios de inteligência financeira analisados pela CPMI apontam que as operações ocorreram entre empresas com movimentações consideradas incompatíveis com a atividade econômica declarada, um dos principais indicadores utilizados em investigações sobre lavagem de dinheiro. Esse conjunto de elementos levou os investigadores a aprofundar o rastreamento da origem e do destino dos recursos.
A conexão entre os dois casos amplia o alcance institucional das investigações. Até então, as sanções norte-americanas tinham como foco o suposto vínculo das empresas com o PCC. Já os documentos produzidos pela CPMI mostram que a Victory também aparece em operações financeiras envolvendo empresas investigadas por suspeitas de ocultação de patrimônio e circulação de recursos sem justificativa econômica identificada pelos órgãos de inteligência.
Victory Trading recebeu recursos de empresa apontada como peça central da rede Arpar
Segundo o relatório final da CPMI do INSS, elaborado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), a rede Arpar reúne mais de 40 empresas com indícios de funcionarem como estruturas de fachada para ocultação e movimentação de recursos. A rede tornou-se um dos principais focos da comissão porque concentrava empresas com estruturas societárias semelhantes, elevado volume financeiro e indícios de atuação coordenada, segundo o documento.
De acordo com o relatório, o grupo teria movimentado mais de R$ 39 bilhões e seria responsável pelo branqueamento de recursos desviados em esquemas investigados no INSS. Entre as empresas apontadas está a Wave Intermediações, responsável por transferir R$ 514,5 milhões para a Victory Trading durante o período analisado pela comissão.
Os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) também apontam que a Wave movimentou R$ 2,68 bilhões entre setembro de 2023 e agosto de 2025. Segundo os documentos, não foram identificadas justificativas econômicas nem fundamentos legais capazes de explicar parte das movimentações financeiras registradas, circunstância considerada compatível com indícios de lavagem de dinheiro, embora ainda sujeita à apuração pelas autoridades competentes.
Relatórios de inteligência apontam conexão operacional entre empresas investigadas
Mesmo sem conseguir quebrar os sigilos bancários da Victory Trading durante os trabalhos da CPMI, os parlamentares tiveram acesso a Relatórios de Inteligência Financeira que mencionam a empresa em conjunto com outras companhias investigadas.
Os documentos relacionam a Victory à ACX ITC Serviços de Tecnologia, empresa que, segundo o relatório, utilizava o mesmo dispositivo eletrônico para acessar contas da própria Victory Trading e da Texas Quantum Serviços Digitais. Para investigadores de inteligência financeira, o compartilhamento do mesmo dispositivo pode indicar administração operacional comum entre empresas formalmente distintas, embora esse elemento, isoladamente, não seja suficiente para comprovar irregularidades e deva ser analisado em conjunto com outras evidências.
A ACX ITC também chamou a atenção dos investigadores por seu perfil societário. Apesar de possuir capital social declarado de R$ 101 milhões, seu proprietário, Ericsson de Azevedo, recebeu parcelas do Auxílio Emergencial durante a pandemia de Covid-19 e tinha endereço registrado em um condomínio simples no bairro do Jaçanã, em São Paulo. Essas informações foram incluídas pela CPMI como parte das inconsistências analisadas na investigação.
Sanções dos EUA ampliam alcance internacional das investigações
Além da Victory Trading, o governo dos Estados Unidos sancionou Victor Henrique de Oliveira Shimada, proprietário da empresa, a Pixwave Soluções de Pagamentos, a Wave Construções Inteligentes, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal. Shimada também é citado pelo Ministério Público nas investigações relacionadas ao contrato de patrocínio entre a VaideBet e o Corinthians, nas quais é apontado como operador financeiro do esquema investigado.
As sanções representam a primeira medida adotada pelos Estados Unidos desde que o PCC passou a ser classificado pelo país como organização terrorista estrangeira. Na prática, elas determinam o bloqueio de bens e interesses sob jurisdição norte-americana e proíbem cidadãos e empresas dos Estados Unidos de realizar transações com os sancionados, aumentando o isolamento financeiro internacional dos alvos.
A Victory Trading e a Wave Intermediações também aparecem nas investigações sobre o desvio de recursos do contrato de patrocínio da VaideBet com o Corinthians. As duas empresas ainda foram mencionadas pelo delator Vinicius Gritzbach, assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
O cruzamento entre os dados da CPMI do INSS, os Relatórios de Inteligência Financeira e as sanções impostas pelos Estados Unidos coloca a Victory Trading no centro de diferentes investigações sobre movimentações financeiras suspeitas. Embora os procedimentos ainda estejam em apuração e as conclusões dependam das autoridades competentes, a convergência desses registros amplia o interesse institucional sobre a circulação internacional de recursos, o combate à lavagem de dinheiro e a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado.