O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou nesta sexta-feira (26) que “maus brasileiros” trabalharam contra o país e agora tentam reparar o prejuízo provocado pelo tarifaço dos EUA. A declaração ocorreu após o secretário de Estado americano, Marco Rubio, responder à carta enviada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que havia pedido a revisão da tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
A declaração amplia o alcance político de uma disputa que começou no campo comercial. Em vez de concentrar o debate apenas nas negociações entre Brasília e Washington, o governo passou a relacionar diretamente a atuação de integrantes da oposição ao risco de prejuízos para exportadores, indústria e setores que dependem do mercado americano.
A resposta de Rubio reconheceu o otimismo manifestado por Flávio Bolsonaro, mas afirmou que ainda existem diferenças relevantes na investigação conduzida pelos Estados Unidos sobre práticas comerciais brasileiras. Sem indicar qualquer recuo imediato nas tarifas, a manifestação abriu espaço para que o governo reforçasse sua narrativa de que a negociação oficial permanece em andamento.
Ao responsabilizar publicamente integrantes da oposição, Alckmin amplia o debate para além da economia e leva a disputa para o campo político, buscando associar o desgaste das relações comerciais à atuação de adversários. A estratégia transforma o tarifaço em um tema de confronto eleitoral, além de uma questão diplomática.
Tarifaço dos EUA aumenta o custo político para Flávio Bolsonaro
Sem citar diretamente o senador na declaração sobre os “maus brasileiros”, Alckmin deixou claro que a crítica era dirigida à atuação política relacionada às tarifas impostas pelos Estados Unidos.
“São maus brasileiros que trabalharam contra o Brasil e agora estão tentando remediar o estrago que foi feito”, declarou o vice-presidente.
A fala representa uma mudança de estratégia do governo. Além de defender as negociações em curso, o Palácio do Planalto passa a disputar a narrativa sobre quem deve ser responsabilizado pelo desgaste comercial com os Estados Unidos. Com isso, o episódio deixa de ser apenas uma negociação internacional e passa a produzir custo político interno.
Governo contrapõe negociações oficiais à atuação política
Durante o mesmo evento, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, detalhou o andamento das conversas entre Brasil e Estados Unidos para reforçar que as tratativas seguem pelos canais diplomáticos oficiais.
Segundo o ministro, desde 7 de maio já foram realizadas oito reuniões técnicas, e um novo encontro entre representantes dos dois países já está previsto para a próxima semana, em níveis técnico e político.
O governo utiliza esse histórico de reuniões para sustentar que as negociações seguem de forma institucional, diferenciando esse trabalho de iniciativas individuais conduzidas por agentes políticos. Esse contraste reforça a estratégia de mostrar que a interlocução oficial continua ativa, independentemente das manifestações públicas sobre o tarifaço.
- Oito reuniões técnicas foram realizadas desde maio.
- Um novo encontro bilateral está previsto para a próxima semana.
- As negociações seguem simultaneamente nos níveis técnico e político.
União Europeia amplia os desafios da política comercial brasileira
Além das negociações com Washington, Alckmin informou que o governo trabalha para reverter até setembro a decisão da União Europeia que retirou o Brasil da lista de países que atendem aos critérios do bloco para determinadas exportações.
Segundo o vice-presidente, o governo brasileiro já apresentou um novo protocolo para tentar restabelecer esse reconhecimento e preservar o acesso ao mercado europeu.
A coincidência entre as negociações com Estados Unidos e União Europeia mostra que a política comercial brasileira enfrenta desafios simultâneos em dois dos seus principais mercados externos. Enquanto busca reduzir os impactos econômicos dessas medidas, o governo também disputa a narrativa sobre quem será responsabilizado politicamente pelos efeitos da crise, ampliando o alcance do tema para além da diplomacia e do comércio exterior.