PF prende pastor Márcio Poncio e amplia investigação sobre rede financeira do jogo do bicho

A prisão do pastor Márcio Poncio marca uma nova fase da Operação Unha e Carne. A Polícia Federal amplia a investigação para apurar uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho e possíveis conexões com agentes públicos.
Pastor Márcio Poncio em imagem de arquivo. Líder religioso foi preso pela Polícia Federal na quinta fase da Operação Unha e Carne, que investiga suposta lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho.
Pastor Márcio Poncio foi preso pela Polícia Federal na quinta fase da Operação Unha e Carne, que amplia a investigação sobre uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho.(Imagem:Instagram).

pastor Márcio Poncio foi preso nesta quinta-feira (2) durante a quinta fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal (PF). A nova etapa da investigação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e representa uma ampliação do alcance das apurações, agora concentradas em uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho.

Márcio Poncio ficou conhecido nacionalmente por sua atuação como líder religioso e pela projeção da família Poncio, um dos grupos mais conhecidos do meio evangélico nas redes sociais. Além da notoriedade de filhos como Sarah PoncioSaulo Poncio, o pastor também é empresário do ramo do tabaco e fundador da Crive Tabacos, indústria de cigarros que, segundo ele, foi construída após décadas de atuação no setor. A empresa e sua trajetória empresarial já foram alvo de debates públicos devido à combinação entre sua atividade religiosa e os negócios no mercado de cigarros.

Além de Poncio, Alexandre de Moraes expediu mandados de prisão contra Adilsinho e o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, ambos já presos. Também foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão. Segundo a Polícia Federal, esta fase busca aprofundar indícios de lavagem de dinheiro praticada pelo grupo investigado e apurar possível ramificação do esquema junto a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro.

A investigação tramita sob relatoria de Alexandre de Moraes porque foi vinculada à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas. Se as primeiras fases buscavam identificar os responsáveis pelo suposto vazamento de informações sigilosas sobre operações policiais, o foco agora passa a acompanhar a movimentação financeira atribuída ao grupo investigado, ampliando o alcance das apurações para possíveis mecanismos de ocultação de patrimônio e eventuais conexões com agentes públicos.

Operação saiu dos vazamentos e ganhou novas frentes de investigação

A Operação Unha e Carne foi deflagrada em dezembro de 2025 para investigar o suposto vazamento de informações sigilosas relacionadas a ações policiais contra o Comando Vermelho (CV). Segundo a Polícia Federal, os dados compartilhados teriam comprometido operações e beneficiado investigados ligados à facção criminosa.

Na primeira fase, o principal alvo foi o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, suspeito de repassar informações da Operação Zargun ao ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado pelos investigadores como articulador político da facção. De acordo com a PF, o vazamento teria permitido a destruição ou ocultação de provas, comprometendo o andamento das investigações.

Com o avanço das diligências, o inquérito incorporou novos investigados e novas linhas de apuração:

  • o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), foi preso sob suspeita de participação nos vazamentos;
  • Rodrigo Bacellar voltou a ser preso após a cassação do mandato e denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR);
  • o deputado estadual Thiago Rangel foi preso na quarta fase, suspeito de fraudes em contratos da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc).

Prisão de Márcio Poncio marca mudança de foco da Operação Unha e Carne

A quinta fase representa um novo desdobramento da investigação ao direcionar esforços para uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro atribuída a Adilsinho, apontado pela Polícia Federal como um dos principais nomes da atual cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro.

Segundo a PF, o aprofundamento das diligências e a análise do material reunido nas fases anteriores levaram ao surgimento de novos indícios relacionados à movimentação financeira do grupo, ampliando o escopo da investigação além dos supostos vazamentos de informações policiais. A inclusão de Márcio Poncio entre os alvos evidencia essa nova frente de apuração.

A Polícia Federal informou que pretende identificar como recursos teriam sido movimentados, ocultados e utilizados pela organização investigada. Também apura uma possível conexão entre essa estrutura financeira e integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro. Até o momento, porém, não foram divulgados os nomes de agentes públicos eventualmente alcançados por essa linha de investigação, nem há imputação formal contra integrantes desses Poderes nesta fase.

O que muda a partir desta etapa da investigação

A quinta fase consolida a ampliação da Operação Unha e Carne para além da investigação sobre vazamentos de informações sigilosas. O foco passa a incluir o rastreamento de recursos financeiros e a identificação de possíveis mecanismos utilizados para ocultar patrimônio, sempre dentro das hipóteses investigadas pela Polícia Federal.

A partir desta etapa, o avanço do inquérito dependerá da análise do material apreendido nas buscas e do cruzamento de informações financeiras autorizadas pela Justiça. Esses elementos poderão confirmar ou afastar as hipóteses investigadas pela Polícia Federal sobre a existência de uma estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao jogo do bicho e de eventuais conexões com agentes públicos, pontos que permanecem sob apuração e deverão orientar os próximos desdobramentos da Operação Unha e Carne.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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