Listas de políticos apreendidas com Adilsinho ampliam investigação da PF sobre suposta rede de pagamentos

A descoberta de listas de políticos na casa de Adilsinho levou a Polícia Federal a ampliar a Operação Unha e Carne. A investigação apura suspeitos pagamentos a agentes públicos e possível ligação entre a Máfia do Cigarro e a política fluminense.
Adilsinho durante ação da Polícia Federal na Operação Unha e Carne, investigação apura listas de políticos e supostos pagamentos a agentes públicos.
Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, durante ação da Polícia Federal. Investigação apura planilhas com nomes de políticos e suspeitos repasses financeiros.(Imagem: Marcia Folleto).

A Polícia Federal (PF) ampliou o alcance da Operação Unha e Carne após encontrar listas com nomes de políticos entre os pertences do contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como um dos principais líderes da Máfia do Cigarro no Rio de Janeiro. Os documentos embasaram uma nova frente de investigação sobre suspeitos repasses financeiros a agentes públicos.

As listas foram apreendidas durante a Operação Smoke Free, em novembro de 2022, mas passaram a ganhar protagonismo nas investigações que resultaram na quinta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta quinta-feira (2). Segundo a PF, os documentos podem indicar supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações relacionadas à lavagem de dinheiro, ampliando o escopo da apuração.

A nova frente representa uma mudança de patamar para a investigação. Até então concentrada na estrutura financeira da organização criminosa e no comércio ilegal de cigarros, a PF agora busca esclarecer se parte dessa engrenagem também foi utilizada para manter uma possível relação financeira contínua com agentes públicos, hipótese que permanece sob investigação.

Na prática, a descoberta das planilhas amplia o objeto da Operação Unha e Carne. Caso a suspeita seja confirmada ao longo da apuração, o foco deixará de atingir apenas empresários e operadores financeiros para alcançar uma eventual estrutura destinada a garantir influência política ao grupo criminoso. Até o momento, porém, não há conclusão da investigação nem acusação formal contra os nomes citados nas listas.

PF apura se planilhas registravam pagamentos periódicos a agentes públicos

De acordo com a Polícia Federal, as listas estavam guardadas dentro de uma mala de couro localizada na cabeceira da cama de Adilsinho em um dos imóveis alvo de busca na Operação Smoke Free. Para os investigadores, o material chamou atenção por apresentar registros compatíveis com uma possível contabilidade paralela.

Segundo a corporação, as planilhas contêm referências a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e registros financeiros ligados à lavagem de capitais, além de anotações que podem indicar repasses destinados a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro.

Para a PF, pagamentos periódicos, se comprovados, podem indicar uma relação continuada entre integrantes da organização criminosa e agentes públicos, diferentemente de transferências isoladas. Essa é uma das hipóteses examinadas na nova fase da investigação e ainda depende da análise conjunta de outros elementos de prova.

Até o momento, a PF informou que:

  • investiga pelo menos 25 nomes que aparecem nas listas;
  • apura a suspeita de pagamentos periódicos conhecidos informalmente como “mesadas”;
  • ainda trabalha para identificar e confirmar a eventual participação dos citados nos documentos.

O blog do jornalista Octavio Guedes, no g1, informou que o nome do ex-governador Cláudio Castro (PL) aparece em uma das listas apreendidas. A Polícia Federal ainda não confirmou oficialmente a identidade dos demais nomes mencionados.

A própria PF ressalta que a presença de um nome nas planilhas, por si só, não comprova a ocorrência de pagamentos irregulares nem a participação dos citados em crimes. Os documentos integram o conjunto de elementos que ainda serão confrontados com outras provas produzidas durante a investigação.

Nova fase também atingiu empresários e integrantes da estrutura investigada

Na quinta fase da Operação Unha e Carne, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal cumpriu novos mandados de prisão e medidas patrimoniais para aprofundar a investigação sobre a estrutura financeira da organização.

Entre os alvos estão o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, que já estava preso, e o empresário Márcio Poncio, patriarca da conhecida família Poncio e empresário do setor de tabaco. Segundo a investigação, Poncio é suspeito de manter vínculos com a Máfia do Cigarro, hipótese que será analisada ao longo do processo.

Além das prisões, Moraes determinou o sequestro de bens e valores de até R$ 22 milhões, medida destinada a impedir a movimentação de recursos que possam ter origem ilícita enquanto a apuração prossegue.

ADPF das Favelas deu origem à ofensiva da PF contra a organização

As investigações começaram em 2021 e ganharam força após determinação do Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. A decisão atribuiu à Polícia Federal a missão de investigar a atuação das principais organizações criminosas violentas no Rio de Janeiro e suas possíveis conexões com agentes públicos.

Nesse contexto, a PF passou a ampliar o foco das apurações para além dos crimes ligados ao contrabando e à lavagem de dinheiro, buscando esclarecer se organizações criminosas mantinham canais de influência sobre agentes públicos, sempre com base em provas produzidas durante a investigação.

Adilsinho é apontado pelos investigadores como um dos principais articuladores da Máfia do Cigarro, organização que, segundo investigações anteriores da própria Polícia Federal, chegou a controlar a comercialização ilegal de cigarros em 45 dos 92 municípios fluminenses, impondo exclusividade à venda dos produtos fabricados pelo grupo em diversas regiões do estado.

Em nota, a defesa de Adilsinho afirmou que rejeita qualquer alegação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos e declarou confiar no devido processo legal. Já o advogado de Márcio Poncio informou que ainda não teve acesso aos autos e, por isso, disse não conhecer os fundamentos da prisão preventiva decretada contra seu cliente.

A identificação dos nomes presentes nas listas passou a ser uma das principais frentes da Operação Unha e Carne. O resultado dessa etapa poderá definir se a investigação permanecerá concentrada na estrutura financeira da Máfia do Cigarro ou se avançará para a apuração de eventuais conexões com agentes públicos, sempre respeitando o devido processo legal e a presunção de inocência dos investigados.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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