Americanos deixam EUA e país registra inversão histórica na migração

Americanos deixam EUA em número recorde, gerando saldo migratório negativo histórico. Europa lidera como destino, com alta em Portugal e pressão no mercado imobiliário.
Americanos deixam EUA durante segundo mandato de Donald Trump
Donald Trump em evento oficial na Casa Branca; segundo mandato é citado por analistas como fator no aumento de americanos deixando os EUA. Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein

Pela primeira vez desde a Grande Depressão, os Estados Unidos (EUA) registraram mais saídas do que entradas de residentes. Nesse cenário, americanos deixam os EUA em ritmo recorde, conforme informou o The Wall Street Journal em reportagem publicada na quinta-feira (26/02), indicando uma inversão histórica no saldo migratório do país. Estimativa da Brookings Institution aponta que cerca de 150 mil pessoas deixaram o território americano em um único ano.

O fluxo não é episódico. Dados de autorizações de residência, compra de imóveis e matrículas em universidades em mais de 50 países indicam uma tendência contínua de expatriados. Analistas associam o pico recente ao segundo mandato de Donald Trump, apelidando o fenômeno de “Donald Dash”. A leitura, contudo, vai além da política doméstica.

Por que os americanos deixam EUA e escolhem a Europa

Mais de 1,5 milhão de americanos vivem na Europa, incluindo 325 mil no Reino Unido. Em quase todos os 27 países da União Europeia, cresce o número de cidadãos dos EUA que passam a residir e trabalhar no bloco.

Portugal se destaca. O total de americanos residentes aumentou mais de cinco vezes desde a pandemia. Na Espanha e nos Países Baixos, os números quase dobraram na última década. Já a República Checa mais que duplicou sua população americana no mesmo período. Para além dos números absolutos, o padrão revela preferência por sistemas de saúde públicos, educação acessível e proteção social.

México lidera fora da Europa

O México abriga mais de 1,5 milhão de americanos, segundo dados citados pelo WSJ. O Canadá soma cerca de 250 mil, sem incluir dupla nacionalidade. No último ano, mais americanos se mudaram para a Alemanha do que alemães para os Estados Unidos, e a Irlanda recebeu o dobro de novos residentes americanos em relação ao ano anterior.

Estimativas indicam que entre 4 milhões e 9 milhões de cidadãos dos EUA vivem fora do país, embora não exista um cadastro consolidado. Em paralelo, pedidos de renúncia à cidadania americana cresceram quase 50% em 2024.

Americanos deixam EUA: custo de vida e teletrabalho aceleram decisão

Entre os fatores citados estão custo de vida elevado, violência urbana e polarização política. Pesquisa do Instituto Gallup revelou que 40% das mulheres americanas entre 15 e 44 anos desejam viver permanentemente no exterior.

O avanço do teletrabalho facilitou a transição. “Os salários são mais elevados nos Estados Unidos, mas há mais qualidade de vida na Europa”, afirma Chris Ford, que se mudou com a família para Berlim.

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Pressão imobiliária e reação local

O aumento da presença estrangeira gera tensão em alguns destinos. Em Portugal, 58% dos compradores estrangeiros de imóveis são americanos, e bairros históricos de Lisboa tiveram preços duplicados em cinco anos.

Casos semelhantes são relatados em Espanha e em regiões turísticas da Ásia e da América Latina, onde a valorização imobiliária pressiona moradores locais.

No plano estrutural, o dado mais sensível não é apenas que americanos deixam EUA, mas que o país passa a disputar talentos e residentes com economias que oferecem estabilidade social e serviços públicos robustos. A tendência sugere mudança no padrão migratório tradicional e impõe aos Estados Unidos um debate sobre competitividade interna em qualidade de vida.

Foto de Ramylle Freitas

Ramylle Freitas

Ramylle Freitas é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atua na cobertura de política e geopolítica no J1 News Brasil, com produção de conteúdos analíticos voltados ao cenário institucional, relações internacionais e dinâmicas de poder. Também colabora com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), reforçando o compromisso com apuração rigorosa e checagem de fatos.

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