A crise no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), marcada pela demora na análise de benefícios e desgaste interno no governo, levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tomar a decisão de promover a demissão do presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, nesta segunda-feira (13/04). A medida veio após perda de confiança, conflitos internos e avaliação de que a gestão não conseguiu resolver o principal problema: a fila de pedidos.
A saída de Waller, no entanto, não foi imediata. O governo já avaliava sua permanência há meses, mas, com o avanço do desgaste interno e o conflito direto com o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, a decisão acabou sendo acelerada. Nesse contexto, a leitura dentro do Palácio do Planalto passou a ser de que a troca era necessária para destravar o INSS.
Além disso, a demissão marca uma mudança no comando do órgão responsável por aposentadorias, pensões e auxílios pagos a milhões de brasileiros — e, ao mesmo tempo, sinaliza uma nova tentativa de dar resposta a um problema que afeta diretamente a renda da população.
Conflito interno foi decisivo para a demissão
O rompimento entre Waller e o ministro Wolney Queiroz foi, portanto, um dos principais fatores para a saída. A relação, que já era tensa, se deteriorou ao longo dos meses, especialmente por divergências sobre gestão e decisões estratégicas dentro do instituto.
Um dos episódios mais críticos ocorreu quando Waller pediu a exoneração da diretora de Tecnologia da Informação do INSS. Ele alegou proximidade da servidora com um ex-dirigente investigado pela Polícia Federal. O ministro, por sua vez, rejeitou o pedido e afirmou que não havia irregularidades.
Com isso, a troca de posicionamentos expôs o conflito e evidenciou a falta de alinhamento na cúpula do órgão. A partir desse momento, o então presidente do INSS passou a perder espaço dentro do governo.
Além disso, integrantes da Previdência passaram a questionar o perfil de Waller. A avaliação era de que ele tinha experiência em controle e auditoria, mas, por outro lado, não na gestão de uma estrutura complexa como o INSS.
Perda de confiança selou a saída
Dentro do governo, a permanência de Waller passou a ser vista como inviável. Isso porque a avaliação consolidada foi de que a gestão não conseguiu entregar resultados no ritmo esperado.
Mesmo com medidas adotadas para acelerar a análise de benefícios e com o registro de 1,625 milhão de processos concluídos em março — um recorde —, o impacto prático foi considerado insuficiente.
Ainda assim, a percepção interna era de que o problema persistia e que a condução do órgão não estava conseguindo mudar esse cenário. Por isso, a perda de confiança pesou diretamente na decisão de substituição.
Fila do INSS aumentou pressão sobre o governo
Embora não tenha sido o único motivo, o tamanho da fila reforçou o desgaste da gestão. Em março, o INSS ainda acumulava cerca de 2,7 milhões de pedidos aguardando análise.
Esse volume representa um aumento expressivo em relação ao fim de 2022, quando o estoque era de aproximadamente 1,087 milhão. Ao longo dos anos, portanto, a fila quase triplicou, pressionada pela entrada diária de cerca de 61 mil novos requerimentos.
Mesmo com uma redução recente — de 3,1 milhões para 2,7 milhões —, o número segue elevado. Nesse cenário, a avaliação dentro do governo é de que a melhora pontual não foi suficiente para alterar a percepção negativa da população.
Troca indica mudança de estratégia
Diante desse quadro, a escolha de Ana Cristina Viana Silveira para assumir o comando do INSS indica uma mudança na estratégia do governo.
Servidora de carreira desde 2003, ela construiu sua trajetória dentro do próprio instituto e ocupava o cargo de secretária-executiva adjunta do Ministério da Previdência. Além disso, presidiu o Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS).
Com isso, ao nomeá-la, o governo aposta em um perfil mais alinhado à gestão interna e à operação do sistema. A expectativa, portanto, é acelerar a análise de benefícios e reduzir o tempo de espera.
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Demissão encerra ciclo iniciado após escândalo
Waller havia assumido a presidência do INSS em 2025, após a crise provocada por investigações de fraudes em descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
As apurações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União apontaram um esquema que pode ter movimentado até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
Naquele momento, sua missão era reorganizar o instituto após o escândalo. No entanto, com o avanço da fila e o aumento da pressão por resultados, a prioridade do governo mudou.
Assim, a demissão marca o fim desse ciclo e o início de uma nova fase, em que o foco passa a ser a redução do tempo de espera e a melhoria na concessão de benefícios.