Faltando 90 dias para a eleição presidencial de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia a reta decisiva da campanha liderando as pesquisas, embora enfrente duas frentes simultâneas de desgaste: o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master sobre aliados do governo e a ameaça de um novo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Os dois temas têm potencial para produzir impacto político e econômico durante a campanha. Ainda assim, o principal campo de oposição atravessa um momento de divisão provocado pela crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro, reduzindo, até o momento, a capacidade do grupo de concentrar o debate eleitoral contra o Palácio do Planalto.
A partir do início oficial da campanha, crises deixam de produzir apenas desgaste institucional e passam a influenciar diretamente a disputa pela narrativa eleitoral. É nesse período que fatos políticos, econômicos e judiciais costumam ganhar maior peso na definição da agenda pública e da estratégia dos candidatos.
Nesse cenário, o governo precisa administrar desgastes relevantes enquanto a oposição divide sua atuação entre a campanha e seus próprios conflitos internos. Os dados disponíveis indicam que Lula preserva a liderança nas pesquisas, ao mesmo tempo em que seus principais adversários ainda buscam reorganizar o campo conservador antes da abertura oficial da campanha.
Direita rachada reduz a coordenação da oposição no início da campanha
O principal foco da crise na oposição é o rompimento público entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), desencadeado por divergências sobre a estratégia eleitoral do partido no Ceará e ampliado por trocas públicas de acusações.
Embora Flávio tenha negado ter desrespeitado Michelle, aliados admitem que o relacionamento entre ela e os filhos de Jair Bolsonaro acumula atritos há anos. O conflito ganhou força após Flávio ser apresentado como herdeiro político do ex-presidente e principal nome do grupo para disputar o Palácio do Planalto.
O desgaste também alcançou a estrutura partidária.
- Michelle deixou a presidência do PL Mulher.
- Sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal perdeu força.
- Lideranças do partido passaram a admitir publicamente que ela pode não disputar o cargo.
Mais do que um conflito familiar, o episódio produz reflexos sobre a estratégia eleitoral do grupo. Parte das lideranças passou a responder à repercussão da crise interna, reduzindo a possibilidade de concentrar o discurso em temas sensíveis ao governo justamente na largada da campanha presidencial.
Caso Master e tarifaço mantêm o governo sob pressão
Enquanto a oposição enfrenta dificuldades de coordenação, Lula administra duas crises distintas.
A primeira envolve os desdobramentos da investigação relacionada ao Banco Master, que atingiu integrantes do entorno do governo. O então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), tornou-se alvo de investigação por suspeitas de favorecimento à instituição financeira, acusação negada pelo parlamentar. O episódio levou à sua substituição na liderança governista para reduzir o desgaste político.
Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou que 37,6% dos entrevistados atribuem maior envolvimento de aliados de Lula no caso Master, enquanto 36% responsabilizam aliados de Jair Bolsonaro, configurando empate técnico nessa percepção. O resultado indica que, até o momento, o episódio ainda não consolidou uma narrativa política dominante entre os eleitores.
A segunda frente envolve a política comercial com os Estados Unidos. O governo tenta impedir que seja adotada uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). O Planalto apresentou um conjunto de propostas para responder aos questionamentos norte-americanos, embora integrantes do governo ainda trabalhem com a possibilidade de a sobretaxa ser implementada.
O prazo para a decisão norte-americana coincide com o início da campanha eleitoral brasileira. Por isso, uma eventual confirmação ou suspensão das tarifas poderá influenciar o ambiente político e econômico durante a reta decisiva da disputa, além de afetar setores exportadores e a relação bilateral entre os dois países.
Pesquisas mostram Lula à frente apesar das pressões
Mesmo diante desse cenário, as pesquisas mantêm Lula na liderança da disputa.
Levantamento da AtlasIntel/Bloomberg aponta 46,3% das intenções de voto para o presidente no primeiro turno, contra 36,6% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual segunda etapa da eleição, Lula aparece com 48,8%, enquanto o senador registra 42,3%.
Os números indicam que os desgastes enfrentados pelo governo ainda não provocaram mudança significativa no quadro eleitoral registrado pela pesquisa. Ao mesmo tempo, a crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro dificulta a construção de uma estratégia unificada da oposição, limitando a exploração política de temas como o caso Master e o tarifaço dos Estados Unidos.
A menos de três meses da votação, o cenário combina duas dinâmicas simultâneas: o governo segue pressionado por temas capazes de influenciar a campanha, enquanto a oposição ainda enfrenta dificuldades para converter esses desgastes em vantagem eleitoral. Esse equilíbrio ajuda a explicar por que Lula chega ao início da campanha mantendo a liderança nas pesquisas, apesar de um ambiente político marcado por forte polarização e novas frentes de tensão.