O tarifaço de Trump entrou nesta segunda-feira (6) em uma fase decisiva, com o início das audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). O processo vai subsidiar a decisão sobre a proposta de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, prevista para ser concluída até 15 de julho.
A mobilização reúne representantes da indústria e do agronegócio, como Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de entidades dos setores de café, mel, ferro-gusa, arroz, açúcar, madeira, papel, calçados, pescados e etanol de milho.
Mais do que contestar as acusações apresentadas pelo governo americano, a estratégia brasileira concentra-se em demonstrar que a tarifa também pode elevar custos para empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos, atingindo cadeias produtivas integradas entre os dois países.
O peso dessa argumentação decorre do próprio modelo da investigação conduzida pelo USTR. Nas audiências da Seção 301 da legislação comercial americana, empresas, governos e associações apresentam manifestações para medir os impactos econômicos das medidas antes da decisão final. A disputa, portanto, deixou de ser apenas diplomática e passou a envolver custos para a indústria, inflação e competitividade dentro dos Estados Unidos.
Tarifaço de Trump pode atingir mais da metade das exportações brasileiras
Segundo estimativas da CNI, 35,2% da pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos seria atingida pela nova tarifa. Quando somadas outras barreiras comerciais já existentes, 54,1% das exportações brasileiras ficariam sujeitas a algum tipo de sobretaxa.
Em São Paulo, os segmentos mais expostos são justamente os de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, autopeças, alimentos industrializados, madeira, móveis e outros produtos manufaturados. Diferentemente de bens de consumo facilmente substituíveis, muitos desses itens funcionam como insumos industriais, o que dificulta a troca de fornecedores e amplia o impacto sobre empresas americanas.
Durante as audiências, as entidades brasileiras também pretendem rebater os principais pontos da investigação conduzida pelo USTR:
- Propriedade intelectual: o Brasil afirma ter reduzido o estoque de patentes no INPI e reforçado o combate à pirataria.
- Tarifas de importação: cerca de metade das importações vindas dos EUA entra no Brasil com tarifa zero ou reduzida por regimes especiais.
- Desmatamento: o setor sustenta que o aumento da produção agrícola ocorreu principalmente por ganhos de produtividade e tecnologia.
- Relação comercial: a defesa brasileira aponta que ampliar a cooperação entre os países seria mais eficiente do que criar novas barreiras.
O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, afirma que a prática brasileira não é discriminatória nem viola as regras internacionais do comércio. Ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), ele também defende que a solução dependerá de negociação política entre os governos, além da sustentação técnica apresentada durante a investigação.
Máquinas e ferro-gusa concentram os argumentos mais sensíveis
A Abimaq pretende demonstrar que a indústria de máquinas brasileira integra cadeias produtivas americanas, e não concorre diretamente com elas. Segundo a entidade, 82% das exportações brasileiras do setor para os Estados Unidos ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico, como matrizes americanas e filiais instaladas no Brasil.
A associação afirma que muitos equipamentos são desenvolvidos sob encomenda, passam por certificações técnicas e envolvem contratos de longo prazo. Uma ruptura nessas cadeias elevaria custos para setores americanos como construção, logística, mineração, energia e transporte.
Outro argumento considerado estratégico envolve o ferro-gusa. O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer) destaca que 83% das exportações brasileiras do produto têm como destino os Estados Unidos. Como o insumo é utilizado na produção de aço e peças fundidas, o setor sustenta que sua substituição seria difícil e poderia pressionar a indústria siderúrgica americana.
Agro aposta no impacto sobre preços e consumidores dos EUA
No agronegócio, representantes da CNA, da Sociedade Rural Brasileira, da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) e da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel levarão argumentos semelhantes aos apresentados pela indústria.
A CNA afirma que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é complementar e lembra que os acordos brasileiros com países como México e Índia seguem as regras da Organização Mundial do Comércio. A entidade destaca ainda que esses acordos representam cerca de 1,9% das importações brasileiras, enquanto os Estados Unidos permanecem entre os principais fornecedores do mercado nacional.
Na área ambiental, a confederação contesta a associação entre expansão agrícola e desmatamento ilegal. Segundo os dados apresentados ao USTR, entre 2005 e 2026 a produção brasileira de grãos cresceu 213%, enquanto o desmatamento na Amazônia caiu 79%, resultado atribuído ao aumento de produtividade e à inovação tecnológica.
Café, mel e pescados concentram outro argumento considerado relevante: a aplicação da tarifa EUA produtos brasileiros pode elevar preços ao consumidor americano e pressionar cadeias produtivas que dependem de matérias-primas importadas do Brasil.
Após o encerramento das audiências, todas as manifestações passarão a integrar a análise técnica do USTR. A decisão prevista para 15 de julho poderá manter a proposta original, ampliar a lista de produtos isentos ou modificar o alcance da sobretaxa de 25%, definindo os próximos passos da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.