Habeas corpus de Deolane expõe dado do MP sobre advogados presos

O julgamento do pedido de Deolane acontece hoje e pode consolidar o entendimento sobre a Sala de Estado-Maior para advogados. O MP apresentou dados sobre 38 profissionais presos em São Paulo para sustentar sua posição.
Deolane Bezerra em montagem ao lado da Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, onde está presa preventivamente em São Paulo.
Montagem mostra Deolane Bezerra e a fachada da Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, unidade onde a influenciadora está presa preventivamente.(Imagem:Editorial).

O habeas corpus de Deolane Bezerra será analisado nesta segunda-feira (6) pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O Ministério Público contesta a transferência da influenciadora com um dado: 38 advogados estão presos atualmente em celas especiais no sistema prisional paulista. Não há registro de pedido da OAB-SP para levá-los a Salas de Estado-Maior.

A informação foi reunida pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) com base em dados da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) e do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Além disso, o levantamento integra o parecer do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) contra o pedido da defesa. Eles pediram que Deolane seja transferida ou, de forma alternativa, cumpra prisão domiciliar.

O ponto usado pelo MP é simples: se outros advogados presos preventivamente em São Paulo cumprem custódia em celas especiais, Deolane não estaria em situação isolada dentro da prática adotada no estado. No entanto, a tese ainda depende da avaliação judicial. Isso porque a defesa sustenta que cela especial não substitui a Sala de Estado-Maior prevista no Estatuto da Advocacia.

A Sala de Estado-Maior é uma acomodação especial para advogados presos antes de condenação definitiva. Deve ser separada de celas comuns e ter condições adequadas de custódia. No caso de Deolane, a discussão é se a ausência desse espaço no sistema prisional paulista permite manter a advogada em pavilhão especial. Além disso, avalia-se se isso impõe prisão domiciliar.

MP diz que SP não tem Sala de Estado-Maior

No parecer encaminhado ao TJ-SP, o Ministério Público afirma que não existem mais Salas de Estado-Maior em funcionamento no sistema prisional paulista. Por isso, defende que a prerrogativa dos advogados vem sendo cumprida por meio de celas individuais ou pavilhões especiais, separados da população carcerária comum.

Para sustentar a posição, o MP anexou dados segundo os quais 368 advogados passaram por celas especiais em São Paulo entre 2007 e 2026. O maior registro ocorreu na Penitenciária “Dr. Sebastião Martins Silveira”, em Araraquara, que recebeu 106 advogados no período.

O levantamento também aponta 33 celas especiais para presos com ensino superior em unidades masculinas e femininas do estado. Esses espaços recebem advogados e outros custodiados com direito legal à prisão especial, como oficiais militares e pessoas enquadradas em hipóteses semelhantes.

Defesa cita inspeção da OAB-SP

A defesa de Deolane Bezerra afirma que ela é advogada regularmente inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil e, por isso, tem direito à Sala de Estado-Maior. O pedido foi apresentado pelos advogados Aury Lopes Jr., Rogério Nunes, Josimary Rocha de Vilhena e Luiz Ricardo Rodrigues Imparato. Eles protocolaram o pedido depois de a Justiça negar a transferência. Vale destacar que a liminar já havia sido rejeitada pela relatora.

No habeas corpus, a defesa cita inspeção feita por representantes da OAB-SP. Segundo os advogados, foram identificados problemas como ventilação insuficiente, condições sanitárias inadequadas, forte odor de tinta e relatos de escorpiões. Além disso, há barulho constante provocado por outras detentas. A defesa afirma que essas condições teriam provocado mal-estar e atendimento médico.

A direção da Penitenciária Feminina de Tupi Paulista apresentou outra versão ao Ministério Público. Segundo a unidade, Deolane está em pavilhão especial, separada das demais presas, em alojamento individual com cama, mesa, banheiro, chuveiro elétrico, televisão, ventilador e banho de sol diário. Ela também possui assistência médica e psicológica, além de quatro refeições por dia.

OAB-SP mudou atuação no processo

A atuação da OAB-SP também entrou na discussão. A entidade havia impetrado habeas corpus em favor de Deolane, alegando violação de prerrogativa profissional. Depois, desistiu desse pedido e passou a atuar como terceira interessada no habeas corpus apresentado pela defesa.

Em junho, o presidente da seccional paulista, Leonardo Sica, publicou vídeo nas redes sociais para responder a críticas sobre a atuação da entidade. Ele afirmou que a OAB paulista tem a missão de proteger prerrogativas e aplicar o Código de Ética. A OAB-SP não respondeu à reportagem original até a última atualização.

Deolane está presa preventivamente desde 21 de maio, no âmbito da Operação Vérnix. Essa operação apura suposto esquema de lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Ela nega as acusações

Na quinta-feira (2), o ministro Ribeiro Dantas, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou pedido liminar da defesa para revogar a prisão preventiva. Em análise inicial, o ministro entendeu que a decisão estava fundamentada pela gravidade dos fatos investigados. O STJ também voltou a negar pedido de soltura da influenciadora em decisão recente.

O habeas corpus será analisado pela 16ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP. A decisão deve indicar se Deolane permanece no local atual, se será transferida para outro espaço de custódia ou se poderá cumprir prisão domiciliar.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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