A família de Oruam, rapper e filho de Marcinho VP, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho (CV), está entre os alvos da Operação Backbone, deflagrada pela Polícia Federal nesta segunda-feira (19). Márcia Gama dos Santos Nepomuceno e Lucas Santos Nepomuceno, mãe e irmão do artista, foram presos em uma investigação sobre o controle armado de provedores de internet. Além disso, a suspeita é de lavagem de dinheiro em comunidades do Rio de Janeiro.
Márcia também é mulher de Marcinho VP, enquanto Lucas é filho dele. Segundo a PF, o integrante da facção, preso há quase três décadas, continuaria exercendo controle sobre atividades empresariais em territórios dominados pelo grupo. Isso ocorre em conjunto com familiares e outras lideranças. No entanto, a investigação não significa que todos os parentes tenham participado das mesmas operações financeiras.
A ação prevê 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O balanço inicial informado à imprensa apontava 19 presos, mas o total ainda estava sujeito a atualizações.
Família de Oruam e o dinheiro investigado pela Polícia Federal
Uma das frentes da investigação procura identificar como os recursos obtidos com a exploração da internet chegariam a integrantes da organização criminosa e seus familiares.
Segundo a PF, o dinheiro destinado à família de Marcinho VP passaria por empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas intermediárias. Os recursos seriam posteriormente dissimulados em produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão pagos em espécie e criptoativos.
A documentação pública consultada não individualiza quais dessas transações teriam sido realizadas por Márcia ou Lucas. As prisões preventivas não equivalem a condenações, e não há confirmação de que Oruam seja investigado na operação.
A investigação também alcançou o vereador carioca Fábio Silva Costa (Podemos), preso em Londrina, no Paraná. Segundo informações obtidas pelo UOL com fontes da PF, ele é suspeito de ser proprietário e beneficiário de provedores associados ao CV. Em nota, o parlamentar negou as acusações e qualquer ligação com práticas ilícitas. Sua defesa informou que ainda não havia tido acesso aos autos.
Internet do tráfico representou mais de 40% da arrecadação na Penha
O esquema investigado funcionaria por meio da imposição de provedores autorizados pela facção. Segundo a Polícia Federal, criminosos armados cortavam cabos, incendiavam caixas de distribuição e impediam reparos de operadoras concorrentes. Assim, obrigavam moradores e comerciantes a contratar os serviços aceitos pelo grupo.
Os provedores autorizados também pagariam uma cobrança mensal pelo direito de operar nos territórios controlados. Registros contábeis citados pela investigação indicam que a internet respondeu por mais de 40% da arrecadação total da facção no Complexo da Penha durante um único mês.
O período exato e o valor absoluto não foram divulgados. Portanto, não é possível calcular o faturamento anual nem comparar diretamente essa receita com o dinheiro obtido pelo tráfico de drogas.
As apurações abrangem os complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, onde a violência contra empresas concorrentes restringiria a possibilidade de escolha dos consumidores.
Peças de fuzil, imóveis de luxo e bloqueio de R$ 558 milhões
Durante as diligências, policiais encontraram peças de fuzil produzidas em impressora 3D na residência de um operador investigado, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio. Também houve apreensão de dinheiro em espécie e buscas em um imóvel de luxo na Barra da Tijuca, associado a um dos apontados como líderes do grupo. As informações foram divulgadas pelo UOL. Entretanto, não houve vínculo individual comprovado desses materiais com Márcia ou Lucas.
A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 558 milhões em bens e valores, abrangendo 40 pessoas físicas e 42 empresas. O montante representa o limite autorizado judicialmente, não dinheiro efetivamente apreendido ou prejuízo comprovado.
As diligências no estado do Rio incluem a capital, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Também foi determinada a suspensão das atividades econômicas de empresas investigadas, entre elas provedores de internet, produtoras de eventos e empresas de contabilidade.
A operação traz uma consequência direta para os moradores: a necessidade de manter o acesso à internet enquanto as empresas investigadas são atingidas pelas medidas judiciais. A PF informou que a Anatel será oficiada para tratar da cassação de outorgas e da interdição dos serviços. Também haverá providências destinadas a assegurar a continuidade das conexões.
Os investigados poderão responder, conforme a participação individual apurada, por crimes relacionados a extorsão, domínio territorial violento, interrupção de serviços de telecomunicações e lavagem de dinheiro. Até o fechamento desta versão, não havia manifestação confirmada das defesas da família de Oruam nas fontes consultadas.