Os benefícios sociais no Ceará representam uma parcela muito maior da economia das cidades do interior do que da capital e de sua região metropolitana. Segundo levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-USP), aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) respondem por 40% da renda agregada no interior cearense, enquanto na Grande Fortaleza essa participação é de 22%.
A diferença revela uma característica importante da economia estadual: o interior depende proporcionalmente mais dos pagamentos sociais e previdenciários para compor sua renda. Isso não significa que 40% da população receba benefícios, nem que os repasses correspondam a essa parcela do orçamento das prefeituras.
Benefícios sociais no Ceará têm maior participação fora da capital
O levantamento mostra que essa concentração não é exclusiva do Ceará. Em aproximadamente 4 mil municípios brasileiros fora das regiões metropolitanas, as transferências públicas podem alcançar o dobro da participação observada nos grandes centros urbanos. Isso ocorre conforme a metodologia do estudo.
A economista Luiza Nassif, codiretora do Made-USP, explica que as famílias de menor renda utilizam quase integralmente os benefícios na compra de itens essenciais. Por isso, uma eventual redução do poder de compra pode atingir também comerciantes e trabalhadores que não recebem diretamente os pagamentos.
Há uma distinção importante entre congelar benefícios e suspender ganhos reais. Quando o valor é corrigido apenas pela inflação, seu poder de compra é preservado. Sem correção durante períodos de aumento dos preços, o mesmo pagamento passa a comprar menos produtos e serviços.
Interior cearense teria perda de até 13% da renda em simulação
O Made-USP comparou diferentes trajetórias de reajuste dos benefícios sociais e previdenciários. Para essa comparação, utilizou como referência o período de 2022 a 2025 e um cenário alternativo baseado nas regras de valorização adotadas entre 2019 e 2022.
No cenário sem a continuidade dos ganhos reais, a renda agregada do interior do Ceará ficaria entre 10% e 13% abaixo do patamar considerado na simulação com valorização dos benefícios. Maranhão, Alagoas e Bahia aparecem na mesma faixa de impacto estimado.
Para o conjunto dos municípios brasileiros fora das regiões metropolitanas, a diferença projetada varia de 6,8% a 10,8%. Esses percentuais não representam perdas efetivamente registradas, mas resultados condicionados às hipóteses econômicas adotadas pelos pesquisadores.
Ceará poderia ter mais de 200 mil pessoas adicionais na pobreza
A pesquisa também avaliou os efeitos sociais da ausência de valorização real dos benefícios entre 2022 e 2025. Nesse cenário hipotético, mais de 200 mil pessoas adicionais estariam em situação de pobreza nos municípios do interior cearense.
Em todo o Brasil, a simulação aponta aproximadamente 2,7 milhões de pessoas adicionais na pobreza fora das regiões metropolitanas, das quais 2,4 milhões estariam em extrema pobreza. Os maiores aumentos absolutos ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas. Além disso, em São Paulo, o aumento seria de até 263 mil, e em Minas Gerais, com até 251 mil.
Segundo documento da Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado, a população rural cearense em extrema pobreza passou de mais de 721 mil pessoas, em 2021, para pouco mais de 212 mil, em 2024. A redução ocorreu em um período no qual o governo estadual também identificou crescimento da renda das famílias mais pobres associado às transferências sociais. Contudo, trata-se de uma série histórica diferente, que não pode ser diretamente comparada às simulações do Made-USP.
Para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os benefícios podem representar até metade da renda, conforme Luiza Nassif. Isso ajuda a explicar por que a política de reajustes tem importância para a capacidade de consumo das famílias de menor renda.
A consequência prática para o interior do Ceará dependerá das regras de atualização dos benefícios nos próximos anos. O estudo não comprova a aprovação de cortes nem quantifica perdas efetivas de empregos ou faturamento no comércio cearense. No entanto, identifica uma exposição econômica maior das cidades do interior às diferentes trajetórias de reajuste.