A Polícia Civil de São Paulo realizou nesta segunda-feira (1º/6) uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG ligada a filme de Bolsonaro, por suspeitas de fraude em contrato de wi-fi gratuito com a Prefeitura de São Paulo. O acordo começou em R$ 108 milhões por ano e chegou a R$ 157,1 milhões após aditivos.
O contrato previa a instalação de 5 mil pontos de internet gratuita em regiões periféricas da capital paulista até junho de 2025. Segundo a investigação, 3.200 pontos foram instalados, mas a execução passou a ser questionada pela diferença entre meta contratada, pagamentos realizados e funcionamento efetivo do serviço.
A entidade pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da Go UP, produtora de Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ligação ampliou o peso político do caso, mas a apuração se concentra no uso de dinheiro público em um contrato municipal de conectividade.
O caso atinge a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em uma área sensível: a promessa de inclusão digital em bairros periféricos. A suspeita envolve:
- superfaturamento;
- falta de capacidade técnica;
- aditivos sucessivos;
- pagamentos antecipados sem serviço correspondente.
ONG ligada a filme de Bolsonaro foi única habilitada em chamamento
A ONG Instituto Conhecer Brasil participou do chamamento público como única entidade habilitada para executar o serviço. Esse ponto pesa porque a polícia aponta que a ONG não teria experiência compatível com telecomunicações, com atuação anterior associada a feiras de livros e eventos religiosos.
As buscas alcançaram endereços ligados à empresária e a sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, responsável pelo contrato entre a gestão municipal e a ONG. A operação cumpre sete mandados de busca e apreensão para recolher computadores, celulares e documentos.
Contrato de wi-fi da Prefeitura de SP teve preço questionado
O dado mais forte da investigação está na comparação de valores. Enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, cobrava R$ 306 por mês por ponto de manutenção, o acordo com o ICB previa R$ 1.800 fixos por ponto, diferença que sustenta a suspeita de superfaturamento no contrato de wi-fi da Prefeitura de SP.
Os aditivos também entraram na mira. Segundo a investigação, três termos foram assinados em intervalos de poucos dias para alterar prazos de entrega. Na prática, esse movimento reduziu a pressão imediata sobre a meta original de concluir os 5 mil pontos até junho de 2025.
A operação busca esclarecer pontos ainda dependentes de documentação:
- quem autorizou os aditivos que alteraram o cronograma de entrega;
- quais servidores validaram as medições apresentadas pela entidade;
- quais documentos embasaram os repasses feitos à ONG;
- como a Prefeitura verificou o funcionamento dos pontos instalados;
- se houve controle interno prévio antes da liberação dos pagamentos.
Instituto Conhecer Brasil expõe cadeia de autorização e pagamento
A administração municipal teria feito pagamento antecipado de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação, ponto que transforma a execução do contrato em problema de controle interno.
Outro dado pesa na análise: a polícia identificou repasses referentes aos pontos, embora apenas alguns estivessem funcionando no período investigado. Essa diferença torna decisiva a documentação sobre medição, validação de entrega e liberação de pagamentos pela Prefeitura.
A partir das buscas na ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), o caso passa a depender do confronto entre contratos, notas, medições de serviço e registros dos equipamentos apreendidos. Essa documentação pode indicar se os aditivos apenas corrigiram prazos de execução ou se sustentaram pagamentos acima da entrega efetivamente comprovada.