A cerca de dois meses do início oficial da campanha, os palanques de Lula e Flávio Bolsonaro ainda apresentam pontos de fragilidade justamente nos estados que concentram a maior parte do eleitorado brasileiro. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará reúnem mais de 100 milhões de eleitores. Portanto, esses estados podem definir o resultado da eleição presidencial.
Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta resolver disputas internas em estados estratégicos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta dificuldades para consolidar alianças em regiões onde o PT mantém forte influência eleitoral. Além disso, os oito maiores colégios representam cerca de 70% dos eleitores aptos a votar.
O cenário expõe um problema comum aos dois principais concorrentes: intenção de voto nacional não garante capilaridade política nos estados. Governadores, candidatos ao Senado e lideranças regionais seguem exercendo papel decisivo na transferência de votos e na mobilização das campanhas.
Mais do que uma disputa por cargos locais, a corrida para fechar alianças revela onde cada candidatura ainda encontra resistência. Em vários estados, os obstáculos surgem dentro das próprias bases políticas. Portanto, isso amplia o custo eleitoral das negociações. Governadores, senadores e lideranças regionais também funcionam como estruturas de mobilização, arrecadação e organização partidária, tornando a montagem dos palanques uma etapa estratégica da corrida presidencial.
Palanques de Lula e Flávio Bolsonaro esbarram em impasses nos maiores colégios eleitorais
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, Lula já definiu Fernando Haddad (PT) como candidato ao governo. No entanto, ele ainda enfrenta uma disputa interna envolvendo Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede) e Márcio França (PSB) pelas vagas ao Senado. A indefinição afeta a composição da chapa considerada estratégica para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
No campo adversário, Tarcísio tentará a reeleição e terá a missão de impulsionar a candidatura presidencial de Flávio. Porém, o governador adotou postura mais cautelosa após o desgaste envolvendo o senador e o empresário Daniel Vorcaro, reduzindo o protagonismo esperado na pré-campanha nacional.
Minas Gerais concentra a maior preocupação das duas campanhas. O estado possui 16,7 milhões de eleitores e carrega a fama de antecipar o vencedor da disputa presidencial desde a redemocratização. O peso político mineiro vai além do tamanho do eleitorado: desde a retomada da democracia, o vencedor da eleição presidencial também venceu em Minas. Isso transformou o estado em um dos principais termômetros da corrida nacional.
Entre os principais fatores de incerteza estão:
- A desistência de Rodrigo Pacheco (PSB) de disputar o governo mineiro;
- A falta de definição sobre o candidato que representará Lula no estado;
- As divergências dentro da direita envolvendo Romeu Zema (Novo), Mateus Simões (PSD) e Cleitinho (Republicanos);
- A necessidade de Flávio ampliar sua presença eleitoral além da influência de Nikolas Ferreira (PL).
Bahia, Pernambuco e Ceará ampliam desafio para a oposição
Os maiores problemas do palanque de Flávio Bolsonaro aparecem no Nordeste, região onde Lula mantém desempenho historicamente elevado. Na Bahia, o PL integra a chapa liderada por ACM Neto (União Brasil). Entretanto, o ex-prefeito de Salvador evita declarar apoio ao senador na disputa presidencial.
O constrangimento político é relevante porque João Roma (PL) disputará o Senado na mesma composição. A ausência de um compromisso público de ACM Neto limita a força do discurso de unidade da oposição no estado. Nesse estado, Lula alcançou 72% dos votos em 2022.
Em Pernambuco, a situação também permanece aberta. Lula tenta repetir uma estratégia incomum: manter interlocução simultânea com a governadora Raquel Lyra (PSD) e com o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB). O objetivo é evitar que a polarização estadual fragilize sua presença eleitoral no estado.
Já a oposição enfrenta dificuldade para encontrar uma candidatura competitiva ao governo após a desistência do vereador Eduardo Moura (Novo). Com isso, o deputado Mendonça Filho (PL) tornou-se uma das principais referências da direita pernambucana na disputa estadual, concentrando parte da articulação eleitoral do grupo.
No Ceará, Lula chega com cenário mais organizado. O governador Elmano de Freitas (PT) disputará a reeleição ao lado de Cid Gomes (PDT) e Eunício Oliveira (MDB) nas vagas para o Senado. A definição antecipada dos principais nomes reduz ruídos internos e oferece maior previsibilidade política ao grupo governista em um dos estados mais favoráveis ao petismo.
Palanques incompletos expõem vulnerabilidades dos favoritos
Nos demais grandes colégios eleitorais, o cenário é mais previsível. Lula possui palanques definidos no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no Ceará. Por sua vez, Flávio já consolidou alianças importantes no Paraná e mantém bases competitivas em estados do Sul.
A diferença é que as principais indefinições permanecem justamente onde o impacto eleitoral tende a ser maior. São Paulo influencia a maior fatia do eleitorado nacional. Além disso, Minas continua sendo observada como termômetro da disputa presidencial. O Nordeste segue estratégico para qualquer tentativa de ampliação de votos fora das bases tradicionais.
Por isso, a principal vulnerabilidade das duas campanhas não está apenas nas pesquisas, mas na capacidade de converter apoios regionais em estrutura eleitoral efetiva. Com a campanha se aproximando, quem conseguir transformar acordos políticos em uma rede de mobilização mais coesa nos estados decisivos largará em posição mais confortável na reta final da disputa presidencial.