A aquisição da distribuidora Terrana, hoje investigada na Operação Carbono Oculto, foi seguida pela divulgação de planos para levar a companhia a novos segmentos do mercado de combustíveis. A compra pela Branson Holdings ocorreu em 30 de dezembro de 2024. Em entrevista publicada em 15 de janeiro de 2025, o novo controlador anunciou estratégias para varejo, etanol e combustível marítimo.
A cronologia acrescenta uma dimensão econômica à terceira fase da investigação deflagrada nesta quinta-feira (24). O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo apura uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionada à aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana.
Terrana planejava chegar ao varejo após a aquisição
Em entrevista à S&P Global publicada em 15 de janeiro de 2025, após a aquisição concluída em 30 de dezembro de 2024, Paulo Narcélio Simões do Amaral, então apresentado como novo proprietário e CEO da Terrana, afirmou que pretendia explorar a entrada no negócio de postos e ampliar parcerias com estabelecimentos sem bandeira. Além disso, a estratégia divulgada também previa fortalecer a atuação no mercado de etanol de São Paulo. Ele declarou que investiria em operações com bunker no Rio de Janeiro.
A entrada no varejo ampliaria o alcance comercial previsto para a Terrana. Até então, a empresa informava atender postos independentes, transportadoras, hospitais, usinas e indústrias. Paulo Narcélio afirmou à S&P Global que via oportunidades de verticalização, especialmente por meio de parcerias com postos sem bandeira. Essa estratégia levaria a distribuidora a ampliar sua presença em outro elo da cadeia de combustíveis.
O tamanho da operação ajuda a dimensionar o ativo adquirido. Entre janeiro e novembro de 2024, a Terrana comercializou 966.360 metros cúbicos de gasolina, etanol, bunker e diesel, ante 970.830 metros cúbicos no mesmo período de 2023. Esses dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e foram publicados pela S&P Global.
A atuação também tinha forte concentração geográfica. Entre janeiro e novembro de 2024, 95,47% das vendas da Terrana estavam no Sudeste, região em que a companhia ocupava a sexta posição entre as distribuidoras, segundo dados da ANP citados pela S&P Global. Já em janeiro de 2025, a empresa respondia ainda por 0,78% do mercado brasileiro de distribuição.
Mais de R$ 120 milhões estão no caminho investigado pelo GAECO
A investigação atual se concentra na estrutura financeira empregada na aquisição da distribuidora. Segundo o GAECO, mais de R$ 120 milhões teriam circulado por diferentes empresas e contas de passagem antes de chegar à estrutura responsável pela compra.
Os investigadores analisam os fundos Radford, Derby 44 e Los Angeles 01, além das empresas Berna Holdings e Branson Holdings. O Ministério Público sustenta que fundos, empresas e operações financeiras teriam sido utilizados para ocultar os controladores efetivos dos ativos.
As suspeitas, segundo o material da investigação, são sustentadas por relatórios do Coaf, documentos bancários, informações fornecidas pelo Banco Genial, análise de movimentações financeiras e mensagens extraídas de aparelhos celulares apreendidos em fases anteriores. Além disso, conversas encontradas pelos investigadores indicariam a utilização de pessoas interpostas, os chamados “laranjas”, para ocultar os verdadeiros controladores dos ativos e da distribuidora.
Buscas chegam a executivo do Genial e empresário ligado ao caso Master
Entre os alvos das buscas desta quinta-feira estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, seus irmãos André e Bruno Tupinambá e o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, dono da Entre Investimentos. Freixo assinou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
De acordo com o GAECO, a estrutura investigada teria sido liderada por Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, chamado de “Primo”. Dessa forma, os dois são apontados pelo órgão como chefes da organização investigada, embora não apareçam entre os alvos de busca desta fase.
Os mandados foram autorizados pela 2ª Vara Criminal de Catanduva, com buscas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. Participam da operação Receita Federal, Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado e as polícias Civil e Militar.
O plano de expansão divulgado pela Terrana em janeiro de 2025 não é apontado pelas fontes consultadas como parte do suposto esquema. A relação documentada é temporal: a estratégia foi anunciada depois da mudança de controle cuja estrutura financeira está sob investigação. Até o momento, as fontes consultadas não demonstram que os recursos investigados tenham financiado ou mantido relação com os planos de expansão anunciados pela distribuidora.