O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atacou Flávio Bolsonaro (PL) e ACM Neto (União Brasil) durante comício em Salvador nesta terça-feira (29). Além dos xingamentos, Lula fez acusações envolvendo milícia, lavagem de dinheiro, uma loja de chocolates e Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Entretanto, os episódios citados têm origens e situações jurídicas diferentes.
Ao falar de seu principal adversário presidencial, Lula chamou Flávio de “mequetrefe”. Ele afirmou que sua experiência seria a “relação com milicianos e uma fábrica de chocolate para lavagem de dinheiro”.
A referência aos chocolates recupera uma investigação antiga. O Ministério Público do Rio de Janeiro sustentou que uma franquia da Kopenhagen da qual Flávio era sócio teria sido utilizada para lavar dinheiro relacionado ao suposto esquema das “rachadinhas” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Flávio sempre negou irregularidades.
Lula e Flávio Bolsonaro voltam ao caso das rachadinhas
O histórico judicial é essencial para entender a acusação feita no palanque. Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público no caso. No entanto, decisões judiciais e relatórios usados anteriormente na investigação foram anulados pelo STJ e pelo STF. A cobertura atual registra que o caso das rachadinhas acabou arquivado após a anulação de provas.
A fala de Lula sobre “relação com milicianos” também exige delimitação. Nesta terça-feira, o ministro Gilmar Mendes, do STF, manteve a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Danielle Nóbrega, mulher do ex-policial militar Adriano da Nóbrega e ex-assessora do gabinete de Flávio na Alerj. Contudo, a ação de improbidade citada nessa decisão tem como foco ex-funcionários e não inclui Flávio Bolsonaro.
Portanto, esses elementos não permitem transformar a declaração ampla de Lula sobre milícia em fato judicialmente estabelecido contra Flávio.
Há ainda uma investigação atual e distinta. O ministro André Mendonça, do STF, autorizou inquérito sobre recursos destinados ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A investigação apura repasses de aproximadamente R$ 61 milhões, entre fevereiro e maio de 2025, atribuídos a Vorcaro para a produção. Segundo a Agência Brasil, a apuração considera a informação de que Flávio teria pedido recursos ao ex-banqueiro. O senador negou ter negociado vantagem indevida e afirmou que o financiamento era privado.
ACM Neto entra no ataque de Lula sobre o Banco Master
No mesmo comício, Lula chamou ACM Neto de “jóquei de cabrito” e “mentiroso”. Depois, afirmou que o candidato ao governo da Bahia deveria explicar uma suposta relação com Vorcaro.
Existe uma alegação de Vorcaro envolvendo ACM Neto, mas ela consta de uma proposta de delação rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. O ex-banqueiro afirmou que ACM Neto e Antônio Rueda teriam atuado em favor do Master junto a institutos de previdência. Segundo ele, ambos teriam recebido comissões equivalentes a 10% dos aportes.
A proposta foi rejeitada por falta de informações inéditas e de garantias para devolução de valores provenientes das fraudes investigadas. ACM Neto nega irregularidades e classificou as acusações como “fantasiosas e mentirosas”.
Assim, as falas de Lula reúnem episódios com estágios diferentes: há uma investigação atual sobre Dark Horse e um caso anterior das rachadinhas afetado pela anulação de provas. Além disso, existe uma proposta de delação de Vorcaro que não foi aceita pela PF e pela PGR. Nenhum desses elementos, isoladamente, autoriza tratar as acusações mais amplas feitas no palanque como fatos comprovados.