Regulação das big techs pressiona plataformas contra golpes e eleva risco para anúncios digitais

Regulação das big techs ganha força com decreto de Lula, que cria cobrança prática sobre plataformas, anúncios fraudulentos e remoção de conteúdo ilegal.
Regulação das big techs no Brasil com redes sociais em smartphone
Decreto amplia cobrança sobre plataformas digitais no Brasil em meio ao debate sobre golpes, anúncios fraudulentos e responsabilidade das big techs. (Imagem: J1 News)

A regulação das big techs entrou em nova fase no Brasil com a assinatura de dois decretos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta quarta-feira (20), voltados às plataformas digitais e à proteção contra violência na internet.

A mudança tenta transformar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre responsabilidade das plataformas em rotina de fiscalização. O efeito prático recai sobre remoção de conteúdo ilegal, anúncios fraudulentos, canais de denúncia e preservação de dados.

Para as big techs, o impacto vai além da moderação de publicações. O decreto que atualiza a regulamentação do Marco Civil da Internet cria mecanismos para aplicar a decisão do STF e dá à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) papel de supervisão sobre medidas preventivas.

Regulação das big techs muda o custo de operar plataformas no Brasil

A mudança central está na passagem de um modelo dependente de ordem judicial para uma lógica com mais cobrança preventiva. O STF havia decidido que plataformas podem ser responsabilizadas em situações específicas mesmo sem descumprimento de ordem judicial, especialmente em crimes graves ou quando houver notificação não atendida.

Com o decreto, o governo tenta criar o caminho administrativo para que essa interpretação seja aplicada. A medida altera a regulamentação do Marco Civil com base na decisão do STF de 2025 e amplia a responsabilização das big techs por conteúdo criminoso.

O efeito prático é a exigência de uma rotina documentada de conformidade. Empresas de tecnologia precisarão demonstrar processos, canais de denúncia, respostas a notificações e preservação de registros.

Essa exigência muda a operação das plataformas porque desloca parte da responsabilidade para a prevenção. A empresa terá de provar que criou ferramentas, respondeu a alertas e adotou medidas proporcionais diante de conteúdos ilegais ou de riscos repetidos.

Decreto das big techs pressiona anúncios, golpes e fraudes digitais

O ponto mais sensível para o mercado está nos anúncios. O decreto determina que plataformas atuem para evitar publicidade de golpes, promoções visivelmente fraudulentas e produtos ilegais, como serviços piratas.

Esse trecho conecta a regulação digital ao modelo de receita das big techs. O tema não envolve apenas conteúdo publicado por usuários. Ele alcança a engrenagem comercial das plataformas, onde empresas, golpistas, afiliados e anunciantes disputam atenção com segmentação algorítmica.

A consequência econômica aparece em três frentes:

  • maior triagem de anúncios antes da veiculação;
  • risco de responsabilização por fraudes não contidas;
  • necessidade de guardar dados para processos judiciais futuros.

Para consumidores e empresas legítimas, a promessa é reduzir golpes e publicidade enganosa. Para plataformas, o desafio é filtrar fraude sem travar campanhas legais, especialmente em ambientes de alto volume e decisão automatizada.

ANPD e big techs: agência ganha papel regulatório sobre plataformas digitais

A ANPD, órgão federal responsável por fiscalizar a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), passa a exercer uma função mais ampla no controle estrutural das plataformas digitais. A agência deverá verificar medidas de prevenção a golpes, canais de denúncia, contestação de decisões e comunicação aos usuários.

O governo afirma que a ANPD não analisará casos concretos nem decidirá o conteúdo de publicações específicas. A fiscalização será voltada ao comportamento sistêmico das empresas, como existência de canais, relatórios, ferramentas e medidas preventivas.

Sem parâmetros objetivos, a expressão “falha sistêmica” pode abrir disputa entre governo, plataformas, usuários, anunciantes e Judiciário. A incerteza cresce porque as sanções ainda não foram detalhadas no novo arranjo regulatório.

Marco Civil da Internet passa por teste de execução

O Marco Civil da Internet, lei de 2014, estabeleceu princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da rede no Brasil. A nova regulamentação não substitui a lei, mas atualiza sua aplicação diante da interpretação do STF sobre responsabilidade civil das plataformas.

Como o decreto não nasce de nova lei aprovada pelo Congresso, o debate deve se concentrar no alcance do Executivo, na segurança jurídica e na capacidade de fiscalização da autarquia.

A mudança também preserva categorias como crítica, paródia, sátira, notícia, manifestação religiosa e liberdade de crença. Esse resguardo tenta reduzir o risco de que a regra seja interpretada como autorização genérica para remoção de conteúdo legítimo.

Ainda assim, a fronteira entre conteúdo ilegal, manifestação protegida e moderação privada continuará gerando conflito. Quanto maior a pressão por remoção rápida, maior o risco de plataformas adotarem filtros excessivos para reduzir exposição jurídica.

Responsabilidade das plataformas vira variável econômica

A responsabilidade das plataformas deixa de ser apenas uma questão judicial e passa a depender da capacidade de comprovar prevenção, resposta a notificações e preservação de registros.

O ponto ainda indefinido está nas punições. O Marco Civil prevê advertência e multa, mas o governo ainda não detalhou com clareza como será a aplicação prática das sanções no novo arranjo regulatório.

A regulação das big techs passa a depender da capacidade da ANPD de transformar decreto, decisão judicial e fiscalização em proteção efetiva contra crimes digitais sem ampliar a insegurança para atividades econômicas legítimas.

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Jackson Pereira Jr

Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação. Integra a equipe editorial do J1 News, com produção de conteúdos e análises voltadas às editorias de política, economia, negócios, tecnologia e temas de interesse público. Também atua editorialmente no Economic News Brasil e no Boa Notícia Brasil.

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