A influenciadora e advogada Deolane Bezerra foi presa preventivamente nesta quinta-feira (21/5), em Alphaville, Barueri, durante a Operação Vérnix, que apura suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A ação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) cumpre seis mandados de prisão preventiva, além de buscas e bloqueios patrimoniais. A polícia também pediu o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e de mais de R$ 300 milhões em contas dos investigados.
O caso ganhou peso porque a apuração não se limita ao recebimento de valores. Segundo a investigação, a fama, o poder aquisitivo e a atividade empresarial de Deolane teriam sido usados para mascarar transações de alto valor e dar aparência legal a recursos atribuídos à facção.
A prisão desloca a repercussão do campo da fama para uma investigação sobre dinheiro, patrimônio e crime organizado. O ponto de maior impacto está na suspeita de que visibilidade digital e negócios formais possam ter dificultado a identificação da origem dos valores.
Deolane Bezerra e PCC entram no eixo da aparência legal
A investigação aponta que Deolane mantinha vínculos pessoais e comerciais com pessoas ligadas a uma transportadora de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. A empresa já havia sido tratada em apuração anterior como estrutura usada para movimentar valores do PCC.
A linha de apuração se apoia no cruzamento entre quebras de sigilo, mensagens interceptadas e registros bancários. Para a polícia, os valores atribuídos à influenciadora não aparecem isolados: surgem em uma sequência de repasses ligados a operadores, empresas e familiares de integrantes da cúpula da facção.
A defesa nega irregularidades. Daniele Bezerra, irmã da influenciadora, afirmou nas redes sociais que tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações. A manifestação reforça o limite jurídico do caso: há investigação e prisão preventiva, não condenação.
Operação Vérnix liga dinheiro, empresas e familiares de Marcola
A Operação Vérnix tem como alvos pessoas ligadas à cúpula do PCC. Entre os citados estão Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, o irmão dele, Alejandro Camacho, sobrinhos do chefe da facção e Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo.
A investigação sustenta que a transportadora funcionava como estrutura para circulação de valores. O elo com Deolane teria surgido após análise de mensagens, quebras de sigilo e registros de depósitos em contas vinculadas à influenciadora e a empresas associadas a ela.
Os principais pontos da apuração são:
- seis mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça;
- bloqueios milionários sobre ativos financeiros e veículos;
- depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil entre 2018 e 2021;
- contas e empresas ligadas a Deolane citadas como destino de valores;
- transportadora de Presidente Venceslau apontada como estrutura financeira do PCC.
O dado dos depósitos fracionados pesa porque esse padrão pode reduzir alertas bancários e dificultar rastreamento. No inquérito, a suspeita é que os valores não tinham lastro compatível com serviços ou negócios formalmente identificados.
Segundo a apuração, também foram identificados quase 50 depósitos em duas empresas ligadas a Deolane, somando R$ 716 mil. Os valores teriam partido de uma empresa apresentada como banco de crédito, mas sem capacidade financeira aparente, conforme a leitura dos investigadores.
Lavagem de dinheiro do PCC saiu de bilhetes no presídio
A origem da investigação remonta a 2019, quando policiais penais apreenderam bilhetes e manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material levou à abertura de inquéritos sobre ordens internas da facção, hierarquia do grupo e planos contra servidores públicos.
Uma das frentes levou à Operação Lado a Lado, em 2021. Naquela etapa, a Polícia Civil identificou a transportadora como instrumento de lavagem e apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador do esquema e hoje foragido.
Segundo a apuração, o celular apreendido reunia registros de depósitos que teriam favorecido contas vinculadas a Deolane Bezerra e a Everton de Souza. A linha investigativa afirma que parte dos valores teria circulado entre empresas, operadores e pessoas ligadas à liderança do PCC.
A prisão de Deolane Bezerra amplia a exposição pública de uma investigação que trata facção criminosa também como estrutura econômica. O caso envolve comando prisional, empresas formais, contas bancárias, patrimônio e personagens com alcance digital expressivo.
A leitura institucional é sensível porque a lavagem de dinheiro do PCC, segundo a investigação, não dependeria apenas de empresas de fachada. Ela também poderia se apoiar em atividades públicas, movimentações patrimoniais e relações comerciais capazes de reduzir suspeitas sobre a origem dos recursos.
Até aqui, a Operação Vérnix produziu prisão preventiva, buscas, bloqueios patrimoniais e nova pressão sobre a trilha financeira atribuída à transportadora de Presidente Venceslau. A defesa de Deolane nega irregularidades, e o caso permanece condicionado à sustentação judicial dos indícios apresentados pela investigação.