Tarifa dos EUA poupa café e petróleo, mas deixa indústria brasileira sob risco bilionário

A tarifa dos EUA contra produtos brasileiros preservou parte das principais exportações do país, mas deixou aço, máquinas, sucos e outros setores industriais expostos a uma sobretaxa de 25%.
Navio cargueiro em terminal portuário brasileiro com contêineres, representando exportações do Brasil para os Estados Unidos em meio à discussão sobre tarifas comerciais.
Terminal portuário movimenta cargas destinadas ao mercado americano, um dos principais destinos das exportações brasileiras afetadas pela investigação comercial dos EUA. (Imagem: Gov).

tarifa dos EUA contra produtos brasileiros proposta após a investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) preservou parte dos principais itens da pauta exportadora nacional, mas manteve expostos setores responsáveis por bilhões de dólares em vendas ao mercado americano. A medida prevê uma sobretaxa de 25% sobre produtos que ficaram fora da lista de exceções divulgada pelo governo de Donald Trump.

Os produtos protegidos incluem petróleo bruto, aeronaves, café, carne bovina e celulose. Juntos, esses segmentos concentram uma parcela relevante das exportações brasileiras para os Estados Unidos e escaparam da nova rodada de restrições comerciais.

Aço semiacabado, máquinas, equipamentos para construção, pneus, alumina processada e madeira industrializada continuam sujeitos ao risco de sobretaxação caso a proposta avance após a fase de consultas públicas.

Ao preservar commodities estratégicas, a proposta concentra a pressão sobre cadeias exportadoras de maior valor agregado, que dependem mais do mercado americano e possuem menor capacidade de redirecionar vendas no curto prazo.

Aço lidera os setores mais expostos à tarifa de 25%

Entre os produtos brasileiros afetados por tarifa dos EUA, o aço aparece como o caso mais relevante. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que os produtos semiacabados de ferro e aço somaram US$ 3,36 bilhões em exportações para os EUA em 2025, o equivalente a 8,92% de tudo o que o Brasil vendeu ao país.

O setor já enfrenta tarifas da Seção 232, mantidas mesmo após decisões judiciais que limitaram parte dos poderes tarifários utilizados por Trump. Isso reduz a margem de adaptação das empresas caso novas barreiras comerciais sejam implementadas.

Embora algumas categorias siderúrgicas tenham sido incluídas nas exceções, os produtos semiacabados, lingotes e formas primárias de aço não aparecem entre os itens preservados. Na prática, uma parcela relevante da cadeia siderúrgica brasileira continua exposta ao aumento de custos para acessar o mercado americano.

O impacto potencial vai além da tarifa. Os Estados Unidos são historicamente um dos principais destinos do aço semiacabado produzido no Brasil, utilizado como matéria-prima por siderúrgicas americanas. Isso torna o setor um dos mais sensíveis a mudanças nas regras comerciais entre os dois países.

Outro segmento relevante é o de ferro-gusa, spiegel e ferro-esponja, que movimentou US$ 1,74 bilhão em exportaçõespara os Estados Unidos. Parte dos produtos pode ser beneficiada pelas exceções destinadas às ferroligas, mas diversos itens seguem sem proteção explícita na proposta americana.

Máquinas, construção e sucos também ficaram fora da lista

tarifa de 25% dos EUA sobre exportações brasileiras também pode atingir segmentos ligados à atividade industrial e à infraestrutura.

Entre os mais relevantes estão:

  • Sucos de frutas e vegetais: US$ 1,61 bilhão em exportações
  • Equipamentos para construção civil: US$ 1,38 bilhão
  • Cal, cimento e materiais de construção: US$ 794 milhões
  • Máquinas de energia elétrica: US$ 660 milhões
  • Pneus de borracha: US$ 536 milhões
  • Alumina processada: US$ 463 milhões

No caso dos sucos, a diferença em relação às frutas chama atenção. A lista de exceções contempla frutas frescas, congeladas, secas e polpas, mas não inclui os produtos industrializados. Isso deixa exposto um dos segmentos mais tradicionais das exportações agroindustriais brasileiras para os Estados Unidos.

A distinção indica que a lista americana privilegiou matérias-primas agrícolas e produtos básicos, enquanto manteve maior pressão sobre itens que passam por etapas industriais de processamento antes da exportação.

Os equipamentos utilizados em obras e projetos de engenharia enfrentam situação semelhante. As isenções concedidas pelos EUA beneficiam principalmente máquinas ligadas à indústria aeronáutica, sem abranger grande parte do maquinário empregado na construção civil e em projetos de infraestrutura.

Já os pneus receberam tratamento restrito. A exceção vale apenas para modelos destinados à aviação, enquanto os pneus de uso geral permanecem fora da lista de proteção anunciada pelo governo americano.

Somados, apenas os setores de aço semiacabado, ferro-gusa, sucos e equipamentos para construção representam mais de US$ 8 bilhões em exportações anuais para os Estados Unidos, mostrando que uma parcela relevante do risco comercial permanece concentrada fora das exceções anunciadas pelo USTR.

Commodities estratégicas ficaram protegidas da investigação

A principal blindagem concedida pelo USTR recaiu sobre produtos considerados estratégicos para o abastecimento e para cadeias produtivas americanas.

O petróleo bruto, principal item exportado pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025, com US$ 4,7 bilhões em vendas, foi preservado. Também ficaram de fora da tarifa café, carne bovina, aeronaves, fertilizantes, medicamentos, celulose e minério de ferro.

Segundo o secretário-executivo do MDIC, Márcio Elias Rosa, cerca de 21% das exportações brasileiras para os EUA podem ser impactadas pela nova proposta. Outros 54% permanecem fora do alcance das tarifas atualmente discutidas.

O governo americano realizará consultas públicas e uma audiência em 6 de julho antes da decisão final prevista para 15 de julho. O desenho preliminar da proposta também altera o perfil dos setores sob pressão. Diferentemente de disputas comerciais anteriores concentradas em commodities ou produtos específicos, a investigação atual desloca parte relevante do risco para segmentos ligados à transformação industrial, área que gera maior valor agregado e concentra empregos qualificados na economia brasileira.

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