Zelle e Pix entram no centro da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos

Zelle e Pix passaram a integrar o debate comercial entre Brasil e Estados Unidos após Eduardo Bolsonaro citar o sistema americano para rebater críticas ao modelo brasileiro. O episódio ocorre durante a investigação do USTR que pode resultar em novas tarifas contra produtos do Brasil.
Eduardo Bolsonaro em montagem com os símbolos do Pix, aplicativo Zelle e bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos durante debate sobre tarifas comerciais.
Eduardo Bolsonaro comparou o Zelle ao Pix ao comentar as críticas dos Estados Unidos ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.(Imagem: Editorial).

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) afirmou nesta quarta-feira (4) que o Brasil pode usar o sistema Zelle nos Estados Unidos como argumento de negociação diante das críticas americanas ao Pix. A declaração ocorre após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) recomendar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Isso ampliou a tensão comercial entre os dois países.

O debate afeta exportadores brasileiros e o setor financeiro porque o Pix foi citado no relatório americano como um dos pontos de preocupação regulatória. Para Washington, a estrutura institucional do sistema brasileiro levanta questionamentos concorrenciais. Por outro lado, o governo brasileiro sustenta que a ferramenta ampliou a competição e reduziu custos para usuários.

A fala de Eduardo busca deslocar a discussão para uma comparação internacional. Ao apontar a existência do Zelle, plataforma amplamente utilizada pelos bancos americanos, o ex-deputado tenta demonstrar que os próprios Estados Unidos operam mecanismos semelhantes. Esses são os que passaram a criticar no Brasil.

A controvérsia também ganhou dimensão política. Enquanto o governo Lula apresenta o Pix como exemplo de inovação nacional diante das críticas externas, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a enfatizar publicamente uma posição favorável ao sistema. Afinal, o Pix se consolidou como um dos serviços financeiros mais populares do país.

Zelle e Pix: por que a comparação apareceu na crise comercial

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro afirmou que os Estados Unidos possuem mecanismos equivalentes ao Pix.

Segundo ele, o sistema Zelle nos Estados Unidos pode servir como referência durante as negociações entre os dois governos.

“O Zelle é o Pix dos Estados Unidos”, declarou.

Apesar da comparação feita pelo ex-deputado, os dois sistemas possuem diferenças relevantes. O Pix é administrado pelo Banco Central e opera de forma integrada em praticamente todas as instituições financeiras brasileiras. Em contraste, o Zelle funciona por meio de uma rede formada por grandes bancos privados americanos.

A estratégia busca enfraquecer um dos argumentos apresentados pelo USTR. O órgão sustenta que a estrutura do Pix criaria vantagens competitivas. Isso ocorre por reunir no Banco Central funções de regulação, operação da plataforma e definição das regras do mercado.

O governo brasileiro contesta essa avaliação e afirma que o sistema ampliou a concorrência, reduziu custos bancários e aumentou a inclusão financeira.

O que os Estados Unidos apontam contra o Pix

O relatório divulgado nesta semana afirma que empresas americanas do setor de pagamentos podem enfrentar condições desfavoráveis no mercado brasileiro. Isso se deve à estrutura regulatória do Pix.

Entre os pontos mencionados pelo USTR estão:

  • O Banco Central atua como regulador do mercado.
  • O Banco Central também opera o Pix.
  • A autoridade monetária define as regras do sistema.
  • Empresas privadas competem com uma plataforma administrada pelo próprio regulador.

A crítica não envolve a eficiência da ferramenta, mas o modelo institucional adotado pelo Brasil para sua operação.

Essa interpretação é rejeitada pelo governo brasileiro, que argumenta que a participação do Banco Central foi decisiva para ampliar a concorrência, reduzir tarifas bancárias e aumentar o acesso da população aos meios digitais de pagamento.

Disputa política amplia debate sobre o sistema de pagamentos

A controvérsia sobre o Pix ultrapassou a área econômica e passou a ocupar espaço no embate político entre governo e oposição.

Após o anúncio das tarifas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a atribuir parte da escalada das tensões à atuação de integrantes da família Bolsonaro junto à administração americana.

Em resposta, aliados do ex-presidente buscaram reforçar a defesa pública do sistema. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ter pedido diretamente ao presidente Donald Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio que evitassem punições contra empresas brasileiras.

Na quarta-feira, Flávio apareceu em um evento segurando um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”, em uma mensagem que associa o sistema ao governo que conduziu seu lançamento.

O peso político da discussão não é pequeno. O Pix movimenta trilhões de reais anualmente e é utilizado diariamente por milhões de brasileiros. Por isso, qualquer questionamento internacional ao sistema produz impacto imediato no debate público, transformando uma discussão regulatória em disputa política.

Apesar da recomendação do USTR, a tarifa de 25% ainda não entrou em vigor. O processo segue em fase de consultas públicas e análise administrativa nos Estados Unidos. O prazo legal para conclusão da investigação termina em julho, quando a Casa Branca decidirá se transforma a recomendação em medida efetiva contra produtos brasileiros.

Veja também

Mais lidas