R$ 304 milhões passaram por empresas de fachada em sobrado de 20 m², diz PF

A Polícia Federal afirma que um pequeno sobrado no Distrito Federal concentrou empresas usadas para ocultar recursos ligados ao esquema de descontos investigado no INSS. O relatório já foi enviado ao STF e seguirá para análise da PGR.
Igreja evangélica no Recanto das Emas, no Distrito Federal, onde, segundo registros da Receita Federal citados pela Polícia Federal, também está cadastrado um CNPJ investigado na Operação Sem Desconto.
Igreja no Recanto das Emas, no Distrito Federal. Segundo a Polícia Federal, um CNPJ ligado a um dos investigados na Operação Sem Desconto está registrado no mesmo endereço da instituição religiosa.(Imagem:Reprodução).

Mais de R$ 304 milhões passaram por empresas registradas em um pequeno sobrado no Recanto das Emas, no Distrito Federal, segundo a Polícia Federal. O imóvel, com salas de aproximadamente 20 m², aparece no primeiro relatório final da Operação Sem Desconto como parte da estrutura usada para ocultar recursos obtidos no esquema investigado de descontos não autorizados em benefícios do INSS. O documento integra o inquérito que indiciou 48 pessoas e agora seguirá para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Segundo a investigação, pelo menos 10 empresas foram abertas no mesmo endereço em nome de pessoas ligadas à Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares (Conafer) e à Associação dos Aposentados do Brasil (AAB). Os registros na Receita Federal apontam atividades variadas, como comércio varejista, locação de veículos e serviços de apoio à agricultura. Para a Polícia Federal, porém, a estrutura física encontrada era incompatível com a movimentação financeira atribuída às empresas, o que reforça a suspeita de lavagem de dinheiro.

Endereços registrados chamaram a atenção dos investigadores

Outro ponto destacado no relatório envolve uma empresa registrada por Samuel Chrisóstomo do Bomfim Júnior. Conforme os dados da Receita Federal citados pela investigação, o CNPJ funciona no mesmo endereço de uma igreja evangélica localizada no Recanto das Emas. No local, a reportagem do Metrópoles encontrou apenas a instituição religiosa. Para a corporação, a ausência de atividade empresarial aparente fortalece a hipótese de que parte dos CNPJs servia apenas para movimentar recursos, sem operação comercial compatível.

A Polícia Federal afirma que o núcleo investigado da Conafer movimentou R$ 708 milhões ao longo do esquema. O relatório também estima que as irregularidades relacionadas aos descontos indevidos possam ter causado prejuízo de cerca de R$ 6 bilhões aos beneficiários do INSS. Durante a investigação, os agentes localizaram planilhas atribuídas à entidade com registros de pagamentos de propina. Segundo a corporação, os valores anotados coincidem com transferências bancárias analisadas no inquérito.

O que acontece após o indiciamento

Entre os indiciados estão o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, além de ex-dirigentes do INSS, empresários e outras pessoas apontadas como integrantes da estrutura investigada. Todos respondem, conforme o caso, por crimes como organização criminosa, corrupção, inserção de dados falsos em sistemas públicos e lavagem de dinheiro. O indiciamento não representa condenação, e os investigados terão direito à ampla defesa durante o processo.

O relatório foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá remeter o material à Procuradoria-Geral da República. Caberá à PGR avaliar se apresenta denúncia, solicita novas diligências ou pede o arquivamento em relação aos investigados. Enquanto isso, aposentados e pensionistas podem consultar o extrato de benefícios no aplicativo ou site Meu INSS para verificar se existem descontos associativos que não reconhecem e solicitar a exclusão ou contestação, caso identifiquem cobranças não autorizadas.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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