O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a afirmar que a eleição presidencial de 2020 foi alvo de interferência estrangeira e citou China e Venezuela como participantes de um suposto esquema de fraude. As declarações, porém, retomam acusações que já passaram por investigações, processos judiciais e análises de órgãos americanos sem que fossem encontradas evidências públicas capazes de alterar o resultado da disputa.
Durante um pronunciamento na quinta-feira (16), Trump afirmou que documentos de inteligência apontariam que agentes ligados à China acessaram dados de cerca de 220 milhões de eleitores e sugeriu que um sistema de manipulação digital de votos semelhante ao atribuído por ele ao governo de Nicolás Maduro poderia ter sido usado nas eleições americanas.
O que está confirmado até agora
As informações conhecidas até o momento apontam um cenário diferente das acusações apresentadas pelo presidente.
Mais de 60 ações judiciais relacionadas à eleição presidencial de 2020 analisaram denúncias de fraude e não encontraram evidências capazes de modificar o resultado da votação. Além disso, autoridades eleitorais americanas e integrantes da própria administração Trump já haviam rejeitado, anteriormente, alegações de manipulação do pleito.
Também em 2021, um relatório elaborado pelas principais agências de inteligência dos Estados Unidos concluiu que não havia indícios de interferência estrangeira na parte técnica do processo de votação.
O que dizem os documentos divulgados
A Casa Branca retirou o sigilo de documentos de inteligência enquanto Trump reforçava sua versão sobre a eleição de 2020. No entanto, o conteúdo divulgado não confirma fraude eleitoral em larga escala.
Os documentos indicam que a China avaliou possíveis ações de influência, mas concluiu que não deveria executá-las. Também afirmam que autoridades venezuelanas demonstraram interesse em sistemas eletrônicos de votação, porém não foi possível confirmar fraude eletrônica em eleições específicas da Venezuela.
Outro trecho destaca que nem a empresa Smartmatic nem o governo venezuelano tinham capacidade para manipular, de forma previsível, o resultado de uma eleição realizada fora do território venezuelano.
Especialistas contestam as novas alegações
Para Rick Hasen, especialista em direito eleitoral da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), o discurso de Trump reúne alegações antigas que já foram desmentidas.
Na mesma linha, Charles Stewart, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), afirmou à AFP que os documentos divulgados não apresentam evidências de manipulação eleitoral.
Na manhã desta sexta-feira (17), China e Rússia também negaram qualquer tentativa de interferência nas eleições americanas.
As declarações de Trump voltam a colocar a eleição de 2020 no centro do debate político dos Estados Unidos. Até o momento, porém, as conclusões oficiais permanecem as mesmas: não foram apresentadas evidências públicas que comprovem fraude capaz de alterar o resultado da disputa presidencial, apesar das novas acusações feitas pelo presidente.