Quem decide se uma pesquisa eleitoral é confiável? Proposta do TSE abre novo debate

Proposta apresentada pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, reacende o debate sobre como pesquisas eleitorais devem ser avaliadas e o que elas realmente mostram ao eleitor.
Presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, durante anúncio da proposta de selo para pesquisas eleitorais.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, apresentou a proposta de criar um selo para reconhecer institutos cujas pesquisas tenham maior proximidade com o resultado das eleições.(Imagem: Luiz Roberto/TSE).

A proposta foi apresentada pelo presidente do TSEKassio Nunes Marques, durante reunião com representantes de 16 institutos de pesquisa. A ideia é criar um selo de acurácia para reconhecer, ao fim de cada eleição, as empresas que registrarem maior proximidade entre seus levantamentos e o resultado oficial. Os institutos terão até sexta-feira (17) para enviar sugestões, que servirão de base para a definição dos critérios da premiação.

Pesquisa registra um momento, não o futuro

O principal ponto levantado por especialistas é que uma pesquisa eleitoral não tem a função de prever quem vencerá uma eleição. A diretora do Datafolha, Luciana Chong, e o cientista político Antônio Lavareda estão entre os que criticaram a proposta ao lembrar que levantamentos estatísticos registram a intenção de voto existente no período da coleta.

Entre a realização da pesquisa e o dia da votação, debates, campanhas, fatos políticos, decisões da Justiça, mudanças na economia e até acontecimentos inesperados podem alterar o comportamento do eleitor. Por isso, comparar diretamente uma pesquisa feita meses antes com o resultado final das urnas pode levar a conclusões equivocadas sobre sua qualidade técnica, segundo a avaliação de especialistas.

Caso AtlasIntel deu origem ao debate

A discussão sobre o selo ocorre enquanto o TSE ainda analisa um processo envolvendo a AtlasIntel. Em junho, Kassio Nunes Marques determinou, em decisão individual, a retirada e a suspensão da divulgação de uma pesquisa do instituto após representação apresentada pelo PL.

O levantamento, divulgado em maio, apontava queda de cinco pontos nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro depois do vazamento de um áudio em que o senador pedia recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O partido alegou que o questionário da pesquisa induzia respostas negativas contra o pré-candidato.

Na ocasião, a AtlasIntel informou que respeitava a decisão da Justiça Eleitoral, afirmou que prestaria esclarecimentos técnicos sobre a metodologia utilizada e disse confiar que o plenário do TSE confirmaria a legalidade do estudo.

O julgamento foi interrompido após pedido de vista da ministra Estela Aranha e segue sem previsão de retomada. Foi depois desse episódio que Kassio Nunes Marques convocou representantes dos institutos para discutir critérios sobre pesquisas eleitorais e apresentou a proposta do selo de acurácia.

O que isso significa para o eleitor

Na prática, a discussão ajuda a esclarecer uma dúvida comum durante as campanhas. Pesquisas eleitorais servem para mostrar como o eleitorado pensa no momento em que as entrevistas são feitas, respeitando metodologia e margem de erro. Elas não eliminam a possibilidade de mudanças até o dia da votação.

Se a proposta do TSE avançar, ainda será necessário definir como será medido esse grau de acerto. Até lá, o debate continua dividindo especialistas sobre qual é a melhor forma de avaliar a qualidade de uma pesquisa sem confundir um retrato do presente com uma previsão do futuro.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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