Flávio Bolsonaro leva disputa sobre tarifas aos EUA em estratégia diferente da adotada por Lula

Enquanto o governo brasileiro aposta em negociações técnicas para evitar novas tarifas dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro foi a Washington defender outra estratégia e intensificou as críticas ao presidente Lula.
Flávio Bolsonaro durante transmissão ao vivo em que comentou as tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) participa de transmissão ao vivo em 8 de julho, na qual comenta a possível aplicação de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e faz críticas ao governo Lula. (Imagem: Reprodução/YouTube/Flávio Bolsonaro).

Faltando poucos dias para a decisão dos Estados Unidos sobre a possível aplicação de novas tarifas contra produtos brasileiros, duas estratégias distintas passaram a marcar a atuação brasileira diante do tema. De um lado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém negociações diplomáticas. De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou de uma audiência pública em Washington para defender mudanças na relação comercial entre os dois países e fazer críticas à política externa do governo.

Em transmissão pela internet nesta quarta-feira (8), o senador afirmou que foi aos Estados Unidos para “proteger o Brasil das tarifas e também do Lula”. Na mesma declaração, disse que o presidente “lambe as botas da China e taca pedra nos Estados Unidos”, ao acusá-lo de priorizar posições ideológicas nas relações internacionais.

Flávio também afirmou ter recebido informações de bastidores indicando que a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros deverá ser confirmada pelos norte-americanos. Segundo ele, sua participação teve caráter técnico e político para tentar influenciar o debate antes da decisão prevista para 15 de julho.

Audiência reuniu Flávio Bolsonaro e Eduardo nos Estados Unidos

Na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Flávio Bolsonaro esteve acompanhado do irmão, Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado que vive atualmente nos Estados Unidos.

Durante sua participação, o senador criticou o Supremo Tribunal Federal (STF) e os governos do PT, classificando este como o pior momento para a adoção de novas tarifas contra o Brasil. A presença de Flávio no evento ocorreu por inscrição aberta ao público e não representou oficialmente a posição do governo brasileiro.

Enquanto isso, o Executivo optou por não fazer pronunciamentos na audiência. A embaixada brasileira enviou representantes apenas como observadores, por entender que as negociações devem ocorrer em reuniões técnicas e de alto nível, consideradas mais adequadas para tratar da investigação comercial aberta pelos Estados Unidos.

Etanol entrou na proposta escrita enviada ao governo americano

Embora não tenha abordado temas como etanol, desmatamento, propriedade intelectual e PIX durante seu discurso, esses assuntos aparecem na investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos contra o Brasil.

Na manifestação escrita entregue ao USTR, Flávio Bolsonaro afirmou existir uma “assimetria tarifária” entre os dois países e sugeriu um acordo de tarifa zero para o etanol e o açúcar.

O governo brasileiro contesta esse entendimento. Segundo o Executivo, a tarifa aplicada ao etanol é igual para todos os países que não possuem acordos preferenciais, sem tratamento específico contra os Estados Unidos. O governo também sustenta que a medida não viola compromissos bilaterais.

Na terça-feira (7), o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, descartou reduzir tarifas sobre o etanol norte-americano. Segundo ele, uma eventual abertura desse mercado poderia prejudicar a indústria sucroalcooleira, especialmente na Região Nordeste.

Brasil mantém defesa técnica contra investigação dos EUA

Paralelamente às declarações de Flávio Bolsonaro, o governo brasileiro segue defendendo sua posição por meio dos canais diplomáticos. Na última quinta-feira (2), o Brasil encaminhou resposta formal à investigação comercial conduzida pelo governo de Donald Trump.

Os Estados Unidos alegam que políticas brasileiras relacionadas ao PIX, desmatamento ilegal, pirataria e aplicação das leis anticorrupção criam barreiras comerciais ou prejudicam empresas norte-americanas.

No documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira, o governo brasileiro afirma que o USTR não apresentou provas de que essas políticas sejam discriminatórias ou representem violações aos compromissos comerciais entre os dois países. Enquanto a decisão americana não é anunciada, o Executivo mantém a expectativa de ampliar a lista de produtos brasileiros que poderão ficar de fora das novas tarifas.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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