A Operação Gutenberg revelou nesta terça-feira (7) que a investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) ultrapassa as suspeitas de fraudes em contratos para compra de livros paradidáticos. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), a apuração também passou a examinar a possível utilização da estrutura de regulação da saúde pública para favorecer interesses do grupo investigado. Os contratos analisados somam mais de R$ 27 milhões, com indícios de direcionamento por inexigibilidade de licitação, corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação de recursos.
A operação cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho, Porto Murtinho, São Paulo (SP) e Abadiânia (GO). Conforme o MPMS, a organização criminosa teria base em Campo Grande e atuaria em diversos municípios de Mato Grosso do Sul, utilizando empresários, servidores públicos e empresas para manter contratos e ocultar a origem dos valores movimentados.
Investigação alcança sistema de regulação da saúde
Um dos principais desdobramentos da operação envolve a área da saúde. De acordo com o Ministério Público, a investigação aponta que servidores com influência sobre a regulação estadual poderiam ter condicionado a autorização de exames, cirurgias e vagas hospitalares à aquisição de livros comercializados pelo grupo investigado. A suspeita ainda é objeto de investigação e não houve conclusão judicial sobre os fatos.
Entre os presos está Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador estadual de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde (SES). Durante a operação, equipes do Gaeco também estiveram no Complexo Regulador Estadual (Core), estrutura responsável pela gestão de leitos, exames, procedimentos e internações do Sistema Único de Saúde (SUS).
Empresárias e ex-prefeito estão entre os alvos
Também foram presas a cirurgiã-dentista Rossana Paroschi Jafar e sua filha, a médica e empresária Olívia Paroschi Jafar. Rossana foi localizada no Edifício Porto Madero, enquanto Olívia foi presa no Edifício Olavo Bilac, ambos em Campo Grande.
Olívia é sócia-administradora da Clínica Ross, empresa fundada em maio de 2026 e que também foi alvo de mandado de busca e apreensão. Formada em Medicina pela Universidade Anhanguera em 2024, ela não possui especialidade registrada no Conselho Federal de Medicina (CFM). Em suas redes sociais, informa atuar com harmonização corporal, tecnologias estéticas e possuir pós-graduação em dermatologia clínica e cosmiatria.
Rossana também figura como sócia-administradora da Gráfica Alvorada, empresa que já apareceu em investigações anteriores relacionadas a contratos de livros didáticos. Em 2017, ela foi alvo da quarta fase da Operação Lama Asfáltica, denominada Máquinas de Lama, conduzida pela Polícia Federal para apurar suspeitas de desvios em contratos do Governo de Mato Grosso do Sul.
Outro investigado preso é Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Júnior Vasconcelos, ex-prefeito de Fátima do Sul e servidor da Polícia Civil cedido ao gabinete do deputado estadual Jamilson Name na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems). Em nota, o parlamentar afirmou não possuir qualquer relação com os fatos investigados, esclareceu que Júnior exerce apenas funções administrativas no gabinete e defendeu que a apuração ocorra com respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência.
Prisões em flagrante ocorreram durante as buscas
Em Porto Murtinho, o servidor Marcio de Souza, da Secretaria Municipal de Educação, também foi alvo da operação. Levantamento no Portal da Transparência aponta diversos vínculos funcionais com o município. Atualmente, ele mantém dois registros ativos, sendo um em licença sem vencimentos e outro na função de gerência administrativa desde janeiro de 2026.
Durante o cumprimento do mandado, Marcio acabou preso em flagrante por porte irregular de arma de fogo. Segundo o boletim de ocorrência, um revólver calibre .22 da marca Taurus foi encontrado no imóvel. Conforme relato prestado aos policiais, a arma teria pertencido ao pai dele, militar da reserva já falecido.
Em Dourados, outra diligência terminou com a prisão em flagrante do marido de uma investigada. Na residência, os agentes localizaram uma espingarda calibre .22 e seis munições calibre .38, levando o comerciante de 47 anos a ser autuado por posse ilegal de arma de fogo.
Governo anuncia afastamentos e auditoria
O Governo de Mato Grosso do Sul informou que apoiou a Operação Gutenberg por meio das forças de segurança e anunciou o afastamento ou a exoneração dos servidores envolvidos, conforme cada situação funcional. A administração estadual também informou que a Secretaria de Estado de Saúde (SES) e a Controladoria-Geral do Estado (CGE) instauraram auditorias para revisar procedimentos sob responsabilidade do Executivo.
Até a última atualização desta reportagem, não havia manifestação das defesas de Rossana Paroschi Jafar, Olívia Paroschi Jafar, Ed Carlo Britto Burgatt e Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior. As investigações prosseguem sob responsabilidade do MPMS e do Gaeco para apurar a participação de cada investigado e a extensão do suposto esquema.