A proposta do governo dos Estados Unidos de ampliar as tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros passou a enfrentar resistência dentro do próprio setor empresarial norte-americano. Em manifestações enviadas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay defenderam que diversos produtos importados do Brasil fiquem fora das novas cobranças por serem considerados estratégicos para suas operações.
As manifestações foram apresentadas no âmbito da investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada pelo governo americano para avaliar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses do país. As empresas afirmam que as tarifas podem elevar custos, comprometer cadeias de suprimentos e reduzir a competitividade de companhias dos próprios Estados Unidos, criando efeitos que vão além da relação comercial com o Brasil.
Indústria americana aponta dependência de produtos brasileiros
Entre os pedidos apresentados ao USTR, a Coca-Cola solicitou a manutenção da isenção para o suco de laranja brasileiro e pediu que limões e derivados também sejam retirados da lista de produtos sujeitos às novas tarifas ou contem com um período de transição. A empresa argumenta que a produção de laranjas na Flórida caiu drasticamente nas últimas décadas, em razão de doenças e pragas, tornando o fornecimento brasileiro importante para o abastecimento.
A Tesla informou que utiliza insumos brasileiros na fabricação de veículos elétricos, baterias e robôs. Segundo a montadora, alguns desses materiais ainda não possuem oferta suficiente nos Estados Unidos, tanto em quantidade quanto em qualidade, o que dificulta uma substituição imediata caso as tarifas sejam implementadas.
Já a Nestlé pediu que o café instantâneo não aromatizado e o colágeno bovino sejam excluídos das novas cobranças. A companhia destacou que o café não é produzido comercialmente em escala nos Estados Unidos e lembrou que o Brasil ocupa posição de destaque como principal exportador mundial de colágeno bovino.
O eBay também apresentou manifestação ao governo americano pedindo uma exceção para produtos usados e seminovos vendidos em sua plataforma. A empresa afirmou que esses itens não competem diretamente com produtos novos fabricados nos Estados Unidos e acrescentou que identificar a origem de mercadorias usadas representa um desafio operacional, já que cerca de 30% das roupas comercializadas chegam sem etiquetas de origem.
Audiências seguem enquanto governo avalia novas tarifas
As audiências públicas sobre as tarifas começaram nesta semana e analisam uma proposta do USTR que prevê uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, além de outra taxa de 12,5%, sob a justificativa de que o Brasil adota práticas que, segundo o órgão americano, restringem ou oneram o comércio com os Estados Unidos.
O debate ocorre enquanto o governo brasileiro acompanha a investigação comercial conduzida por Washington. Em resposta à Câmara dos Deputados, o Ministério das Relações Exteriores informou que avalia possíveis desdobramentos da relação bilateral após decisões recentes do governo norte-americano envolvendo a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
No campo político, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou das audiências realizadas nos Estados Unidos. A presença do parlamentar ocorre em meio às discussões sobre a política tarifária defendida pelo governo Donald Trump, enquanto representantes do setor produtivo e especialistas em comércio exterior também apresentam argumentos durante a análise conduzida pelo USTR.