A menos de dez dias do prazo definido pelos Estados Unidos para concluir a análise sobre o tarifaço contra produtos brasileiros, o governo federal decidiu concentrar seus esforços nas negociações diplomáticas e acompanhar as audiências públicas em Washington apenas como observador. A estratégia é manter o diálogo direto com as autoridades americanas enquanto tenta reduzir os impactos das medidas comerciais em discussão.
Representantes da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos estarão presentes nas audiências organizadas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), mas não farão pronunciamentos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o governo considera que esses encontros têm caráter consultivo e não são o principal espaço para decisões sobre a política comercial. Na avaliação brasileira, as conversas técnicas e diplomáticas seguem sendo o caminho mais adequado para buscar um entendimento entre os dois países.
O calendário das negociações ganhou peso porque o prazo para um acordo termina em 15 de julho. Durante as reuniões realizadas nas últimas semanas, o governo brasileiro apresentou uma proposta de encaminhamento para os seis pontos questionados pelos Estados Unidos na investigação comercial, mas ainda aguarda uma resposta oficial da administração norte-americana.
Na semana passada, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, reuniu-se com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. De acordo com o governo, novas rodadas de negociação deverão ocorrer nos próximos dias como parte da tentativa de construir uma solução antes do encerramento do prazo.
Enquanto o governo mantém sua atuação pela via diplomática, as audiências públicas receberão representantes inscritos individualmente. Entre eles está o senador Flávio Bolsonaro (PL), citado como possível candidato à Presidência da República, que participará do segundo dia de debates. O influenciador político Paulo Figueiredo também confirmou presença. As audiências promovidas pelo USTR são abertas aos interessados previamente inscritos.
Nesta segunda-feira (6), o ministro do Empreendedorismo, Paulo Henrique Pereira, afirmou que a prioridade continua sendo a negociação conduzida pelo governo brasileiro. Segundo ele, a aplicação das tarifas poderá trazer efeitos negativos tanto para a economia brasileira quanto para a norte-americana, motivo pelo qual o Executivo busca demonstrar os impactos da medida durante as conversas bilaterais lideradas pelo ministro Márcio Elias Rosa e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Ao mesmo tempo, o governo procura reduzir a dependência de mercados específicos. O ministro destacou que o Brasil abriu mais de 500 novos mercados para produtos nacionais nos últimos três anos e meio e citou o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia como um dos instrumentos para ampliar as oportunidades de exportação caso as restrições americanas avancem.
Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty avaliam que a recomendação do USTR possui um componente político e apontam que os documentos que fundamentaram a investigação iniciada em julho de 2025 e a recomendação das tarifas apresentada em junho de 2026 são praticamente idênticos. Diante desse cenário, a expectativa do governo não é de uma reversão completa do tarifaço, mas de uma eventual redução das tarifas ou da criação de exceções para determinados produtos brasileiros.