Os ataques públicos de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), passaram a preocupar integrantes do próprio governo. Nos bastidores, a avaliação é de que o aumento da tensão política tornou mais difícil a negociação para destravar a PEC da escala 6×1, uma das principais prioridades do Planalto no Congresso.
O alerta ganhou força após o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmar na última terça-feira (7) que Alcolumbre seria considerado um “inimigo” caso não desse andamento à proposta. A declaração foi vista por ministros e dirigentes petistas como um exagero em um momento em que o governo tentava reconstruir a interlocução com o presidente do Senado.
A consequência já aparece na tramitação da proposta. Mesmo aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, a PEC continua parada no Senado, porque Alcolumbre ainda não autorizou seu envio à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa obrigatória antes da votação em plenário. Na prática, isso significa que não há qualquer cronograma definido para a análise da proposta, prolongando a indefinição sobre uma mudança aguardada por milhões de trabalhadores.
Bastidores indicam mudança de estratégia no Planalto
A percepção entre aliados de Lula é que o confronto público pode produzir efeito contrário ao esperado. Parlamentares do próprio PT passaram a defender uma postura mais conciliadora, argumentando que o avanço da PEC depende do diálogo com a presidência do Senado, e não do aumento da pressão política.
Recentemente, Alcolumbre recebeu representantes de centrais sindicais para discutir a proposta. Segundo relatos de participantes das conversas, até integrantes do movimento sindical defenderam manter as negociações abertas, evitando ampliar o desgaste institucional.
“Eles reconhecem que a gente precisa do Davi. Sabem disso. Dois sindicalistas nos falaram que a gente precisa manter a conversa com ele, e não ir para o confronto“, afirmou um senador, sob reserva.
Como a relação entre Lula e Alcolumbre chegou à crise
O presidente do Senado foi um dos principais aliados do governo no início do terceiro mandato. No fim de 2022, indicou Waldez Góes para o Ministério do Desenvolvimento Regional e, em abril de 2025, também conseguiu emplacar Frederico Siqueira no Ministério das Comunicações.
O desgaste começou em novembro de 2025, quando Lula indicou o então advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
Como reação, tentou antecipar a sabatina de Messias para impor uma derrota ao Planalto, mas recuou porque a indicação ainda não havia sido formalizada. A crise atingiu seu ponto mais alto em abril, quando o Senado rejeitou o nome de Jorge Messias. Alcolumbre foi apontado por aliados do governo como o principal articulador da primeira rejeição de um indicado ao STF em 132 anos, aprofundando o distanciamento entre os dois.
Além da disputa em torno da vaga no Supremo, a relação também se desgastou por divergências sobre indicações para agências reguladoras e pela análise de vetos presidenciais, reduzindo o diálogo entre o Executivo e a cúpula do Congresso.
O que falta para a PEC avançar
Após a declaração de Pedro Uczai, Alcolumbre divulgou nota afirmando que “esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado”. Também reforçou que a definição da pauta do Senado é prerrogativa exclusiva da Presidência da Casa e não se submete a pressões político-eleitorais.
Nos bastidores, o senador também demonstrou incômodo com publicações nas redes sociais que classificou como ataques pessoais, citando manifestações de parlamentares como Lindbergh Farias (PT-RJ), Erika Hilton (PSOL-SP) e do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Apesar do desgaste, interlocutores afirmam que Alcolumbre continua disposto a restabelecer os canais de diálogo com o Planalto e aguarda uma reunião com Lula. A reaproximação vem sendo conduzida pela líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), e pelo líder do PT na Casa, Camilo Santana (PT-CE).
Mesmo que Alcolumbre decida encaminhar a PEC à CCJ, a proposta ainda precisará ser analisada pelos senadores da comissão antes de seguir para votação em plenário. Caso sofra alterações no Senado, o texto terá de retornar à Câmara dos Deputados. Por isso, a retomada do diálogo entre governo e Senado passou a ser vista como peça importante para definir o futuro da PEC da escala 6×1.