Estudantes de diversas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) realizam nesta segunda-feira (8) uma mobilização estadual para denunciar problemas estruturais, falta de professores e insuficiência de investimentos na rede administrada pelo Centro Paula Souza. A paralisação das Etecs ocorre poucos meses após o governo paulista anunciar um amplo programa de modernização para as unidades.
O movimento reivindica melhorias em infraestrutura, contratação de docentes, atualização de laboratórios, ampliação de recursos pedagógicos e revisão de problemas apontados na merenda escolar. O ato principal foi marcado para a Praça da República, na capital paulista, com caminhada até a sede administrativa do Centro Paula Souza.
A mobilização amplia uma tensão que vem ganhando força dentro da rede: enquanto o governo destaca investimentos bilionários para modernização das Etecs e Fatecs, estudantes afirmam que parte das dificuldades continua presente no cotidiano escolar, afetando diretamente a qualidade do ensino oferecido.
A pressão ocorre em um momento de expansão da rede. O Centro Paula Souza administra cerca de 228 Etecs e mais de 220 mil estudantes, enquanto alunos afirmam que problemas como falta de docentes, equipamentos defasados e limitações de infraestrutura persistem em diferentes regiões do Estado. A combinação entre crescimento da rede e reclamações recorrentes passou a alimentar questionamentos sobre a efetividade dos investimentos anunciados.
Paralisação das Etecs mira distância entre promessa e realidade
O principal diferencial do movimento está na tentativa de transformar reclamações isoladas em uma pauta estadual organizada. A articulação ganhou força após a divulgação de um vídeo pelo perfil “@etecsemluta”, que convocou estudantes de diferentes regiões para participarem da mobilização.
Representantes estudantis reunidos na última sexta-feira (5) definiram uma estratégia que combina atos presenciais e produção de um dossiê estadual. O documento deverá reunir relatos, fotografias e registros de problemas enfrentados nas unidades.
Entre as principais reclamações apresentadas pelos organizadores estão:
- Falta de professores em disciplinas regulares e técnicas;
- Laboratórios com equipamentos considerados obsoletos;
- Computadores desatualizados;
- Bibliotecas sem renovação adequada de acervo;
- Problemas estruturais em banheiros e salas de aula;
- Deficiências em espaços esportivos;
- Escassez de recursos pedagógicos básicos.
O movimento pretende utilizar esse material para pressionar o Centro Paula Souza a apresentar respostas concretas para demandas que, segundo os estudantes, se repetem em diversas regiões do Estado.
Relato de Botucatu expõe problemas apontados pelos alunos
Na Etec Dr. Domingos Minicucci Filho, em Botucatu, estudantes afirmam enfrentar dificuldades semelhantes às denunciadas em outras unidades da rede.
Um dos representantes da mobilização local é Samuel Ivale de Macêdo, presidente do movimento Vanguarda Estudantil da escola. Segundo ele, laboratórios apresentam equipamentos sucateados, bancadas danificadas e tomadas sem funcionamento adequado, comprometendo atividades práticas essenciais para a formação técnica.
O estudante também relata que a biblioteca possui acervo considerado insuficiente para parte dos cursos oferecidos e que os computadores disponíveis estariam tecnologicamente defasados. Problemas estruturais em banheiros, salas de aula e na quadra esportiva também foram citados.
Outro ponto destacado é a demora na reposição de docentes. Samuel afirma que os alunos aguardaram durante meses pela contratação de uma professora efetiva de Língua Portuguesa, situação que teria provocado impactos na rotina acadêmica.
O problema tem reflexo direto na proposta das Etecs. Como a formação técnica busca aproximar os estudantes do mercado de trabalho, falhas em laboratórios, equipamentos e reposição de professores podem comprometer justamente a experiência prática que diferencia esse modelo de ensino e ajuda na preparação profissional dos alunos.
Dossiê estudantil pode ampliar desgaste da gestão da rede
As críticas ganham relevância porque atingem uma das instituições educacionais mais tradicionais do Estado de São Paulo. Diferentemente de reivindicações isoladas, a mobilização desta segunda-feira reúne estudantes de diferentes regiões sob uma pauta comum, ampliando o custo político para a gestão da rede caso as reclamações avancem para um movimento permanente.
Parte da insatisfação também envolve mudanças curriculares. Samuel afirma que alunos matriculados no modelo integrado de Ensino Médio e Técnico passaram a ter redução da carga de algumas disciplinas da formação geral, tema que também entrou no debate promovido pela mobilização.
Os organizadores defendem que a qualidade da educação técnica depende de um conjunto de fatores que inclui estrutura adequada, recursos pedagógicos atualizados, professores suficientes e planejamento curricular compatível com as exigências da formação profissional.
Os estudantes afirmam que o dossiê estadual reunirá fotografias, documentos e relatos produzidos pelas unidades participantes. O material deverá ser encaminhado ao Centro Paula Souza como parte das reivindicações apresentadas durante a mobilização, transformando as denúncias locais em um documento formal de cobrança à administração da rede.