A construção da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) encontrou um obstáculo relevante no Nordeste. Embora o partido tenha ampliado alianças estaduais e atraído lideranças competitivas para disputas locais, parte desses aliados evita assumir compromisso público com a campanha nacional do senador.
O cenário aparece nas pesquisas mais recentes. Levantamento Quaest divulgado em junho mostra Lula (PT) com 54% das intenções de voto na região, contra 25% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No segundo turno, a diferença sobe para 61% contra 27%, reforçando o peso eleitoral do Nordeste na disputa presidencial.
Para cientistas políticos, o problema não está na falta de acordos partidários, mas no custo político de associar candidaturas estaduais a um nome identificado com o bolsonarismo em uma região onde o presidente mantém forte vantagem eleitoral.
O desafio tem peso estratégico porque o Nordeste concentra uma das maiores fatias do eleitorado brasileiro e foi decisivo para a vitória de Lula em 2022. Para o PL, mais do que vencer na região, reduzir a vantagem petista passou a ser uma condição relevante para ampliar a competitividade nacional de Flávio Bolsonaro na corrida ao Palácio do Planalto.
Flávio Bolsonaro no Nordeste encontra barreiras mesmo com alianças estratégicas
O caso mais emblemático ocorre no Ceará. Líder nas pesquisas para o governo estadual, Ciro Gomes (PSDB) integra uma aliança que reúne PSDB, PL e União Brasil, mas evita vincular sua candidatura ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
Antes mesmo de oficializar a pré-candidatura, Ciro questionou publicamente por que apoiaria um candidato de outro partido. Posteriormente, passou a defender liberdade para que as legendas da coligação adotem posições diferentes na eleição presidencial e reafirmou apoio ao presidenciável tucano Aécio Neves.
O caso cearense expõe um fenômeno que tende a se repetir em outros estados do Nordeste. Candidatos competitivos ao governo estadual buscam dialogar com eleitores de centro e setores moderados do eleitorado, tornando mais arriscada uma associação direta com a polarização nacional. Nesse cenário, o cálculo regional muitas vezes pesa mais do que os acordos firmados entre as cúpulas partidárias.
A negociação que levou o PL a apoiar Ciro foi marcada por divergências internas no próprio bolsonarismo. Em dezembro, Michelle Bolsonaro criticou publicamente o ex-governador enquanto dirigentes locais negociavam a aliança, provocando um impasse temporário nas articulações.
Entre os principais integrantes da composição cearense estão:
- Ciro Gomes (PSDB) para governador;
- Roberto Cláudio (União Brasil) como vice;
- Capitão Wagner (União Brasil) para o Senado;
- Alcides Fernandes (PL) como segundo candidato ao Senado.
Segundo lideranças locais, caberá ao próprio PL e a Alcides Fernandes defender explicitamente a candidatura presidencial de Flávio no estado. O deputado André Fernandes já afirmou que a estrutura partidária atuará em favor do senador independentemente da posição adotada pelos demais integrantes da coligação.
Pernambuco mostra que alianças não significam engajamento eleitoral
Outro exemplo vem de Pernambuco, onde a governadora Raquel Lyra (PSD) lidera a corrida pela reeleição e mantém postura de aproximação institucional com Lula.
Embora tenha vencido a eleição de 2022 com apoio de lideranças ligadas ao bolsonarismo, como Anderson Ferreira e Gilson Machado, Raquel construiu uma estratégia diferente ao longo do mandato. A governadora buscou fortalecer a relação com o governo federal e destacar a interlocução direta com o presidente da República.
Em evento realizado em maio, Raquel afirmou que Pernambuco “não tem dono” e ressaltou a parceria mantida com Lula. A declaração foi interpretada por analistas como mais um sinal de distanciamento em relação à disputa nacional protagonizada pelo PL.
A postura teve reflexos políticos. O partido perdeu espaço dentro do grupo governista e passou a concentrar esforços na eleição proporcional. Especialistas avaliam que, nesse cenário, o objetivo do PL deixou de ser a construção de um grande palanque presidencial e passou a ser o fortalecimento de suas futuras bancadas estaduais e federais.
A pré-candidata ainda não oficializou sua chapa, mas já sinalizou entendimento com o União Brasil. A expectativa é que Priscila Krause seja mantida como vice, enquanto Miguel Coelho e Túlio Gadêlha aparecem entre os nomes cotados para o Senado.
Paraíba surge como principal aposta do PL na região
A situação mais favorável ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro aparece na Paraíba. O partido conseguiu atrair o senador Efraim Filho, que deixou o União Brasil para se filiar ao PL, e estruturou uma chapa que inclui o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga na disputa pelo Senado.
A filiação de Efraim contou com a presença de Flávio Bolsonaro e foi tratada internamente como parte da estratégia para ampliar a presença do partido no Nordeste. A direção nacional passou a enxergar o estado como uma oportunidade de conectar a disputa regional à campanha presidencial.
A Paraíba também se transformou em um teste para o PL. Diferentemente de outros estados, o partido conseguiu reunir nomes alinhados ao projeto nacional e competitivos na disputa local. O desempenho desse arranjo poderá servir como indicador da capacidade de expansão do bolsonarismo na região.
Mesmo assim, cientistas políticos observam que o ambiente eleitoral paraibano continua favorável ao presidente Lula, repetindo uma tendência observada em grande parte do Nordeste. Isso significa que a existência de um palanque alinhado não garante, por si só, transferência automática de votos para a disputa presidencial.
O cenário revela um paradoxo para o PL. A legenda conseguiu ampliar alianças, atrair lideranças relevantes e aumentar sua presença institucional na região. Porém, a dificuldade de converter esses acordos em engajamento eleitoral efetivo continua sendo um dos principais obstáculos para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Se não conseguir reduzir a vantagem histórica do PT no Nordeste, o senador poderá chegar à fase decisiva da campanha dependendo de margens ainda maiores em regiões onde a direita tradicionalmente obtém seus melhores resultados. É justamente essa equação que transforma o Nordeste em uma das peças centrais da estratégia presidencial do PL para 2026.
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