A convocação do embaixador brasileiro em Assunção pelo governo do Paraguai, anunciada nesta quinta-feira (30), ocorre em um momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também enfrenta outros desgastes no cenário internacional. A reação do presidente Santiago Peña foi motivada pelas declarações de Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança e se soma, por razões diferentes, aos atritos recentes com Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina.
A decisão do governo paraguaio veio após Lula afirmar, durante um discurso em Jacareí (SP), em 24 de julho, que o Paraguai “resolveu invadir o Brasil” ao comentar a Guerra da Tríplice Aliança. A declaração provocou forte reação em Assunção, onde o Congresso aprovou uma manifestação de repúdio e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano convocou o embaixador brasileiro para entregar uma nota oficial de protesto. Mesmo após uma conversa por telefone entre Lula e Santiago Peña, o governo paraguaio manteve a manifestação diplomática.
Paraguai recoloca a relação bilateral sob pressão
A crise atual ocorre pouco mais de um ano depois do desgaste provocado pela revelação de uma operação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em território paraguaio, episódio que levou Assunção a suspender temporariamente as negociações sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu. Agora, o foco da tensão mudou para as declarações de Lula sobre um dos episódios mais sensíveis da história paraguaia.
O Paraguai ocupa uma posição estratégica para o Brasil por causa da administração compartilhada da Usina de Itaipu, da integração energética, da segurança na fronteira e do comércio bilateral. A convocação do embaixador não significa rompimento das relações entre os países, mas representa uma das manifestações diplomáticas formais mais durasutilizadas por um governo para demonstrar insatisfação com declarações de outro chefe de Estado.
Argentina e Estados Unidos ampliam o cenário de desafios
Além da tensão com o Paraguai, o governo brasileiro também mantém relações desgastadas com a Argentina e os Estados Unidos, embora por motivos completamente diferentes.
Na Argentina, o presidente Javier Milei fez críticas públicas frequentes a Lula desde o início de seu mandato. Mais recentemente, voltou a atacar o presidente brasileiro em declarações relacionadas ao cenário político brasileiro, aprofundando o distanciamento entre os dois governos. Apesar das divergências, a Argentina continua sendo o maior parceiro comercial do Brasil dentro do Mercosul, mantendo forte integração nas cadeias industrial e automotiva.
Nos Estados Unidos, a principal divergência envolve comércio e política externa. O governo de Donald Trump manteve medidas tarifárias contra produtos brasileiros e renovou dispositivos relacionados à emergência nacional envolvendo o Brasil, enquanto Brasília passou a contestar parte dessas decisões em organismos internacionais. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, segundo dados oficiais do comércio exterior, o que amplia a importância econômica desse impasse.
Um momento de desafios em diferentes frentes
Embora ocorram no mesmo período, os episódios envolvendo Paraguai, Argentina e Estados Unidos têm naturezas distintas. A reação paraguaia nasceu de uma controvérsia histórica. O desgaste com a Argentina permanece concentrado no campo político. Já a relação com os Estados Unidos envolve principalmente comércio, investimentos e política externa.
O ponto em comum é que os três países ocupam posições estratégicas para o Brasil, seja pela integração regional, pelo peso econômico ou pela cooperação bilateral. Isso faz com que cada episódio tenha potencial para influenciar agendas diferentes do governo brasileiro, ainda que não componham uma única crise diplomática.
Até o momento, o governo paraguaio não anunciou novas medidas além da convocação do embaixador brasileiro, nem informou a suspensão de negociações bilaterais. Ainda assim, o gesto representa a resposta diplomática mais contundente adotada por Assunção desde a crise envolvendo a Abin e recoloca a relação entre Brasil e Paraguai sob maior atenção em um momento em que o Itamaraty administra desafios simultâneos com alguns de seus principais parceiros internacionais.