Brasil acusa EUA de violar regras do comércio mundial e leva disputa das tarifas à OMC

O Brasil acionou a OMC para contestar as tarifas de 25% e 12,5% impostas pelos Estados Unidos, alegando violação das regras do comércio internacional. Embora a disputa tenha sido formalizada, o governo reconhece que o processo deve ter efeito limitado no curto prazo devido às dificuldades do sistema de solução de controvérsias da organização.
Fachada da sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, onde o governo brasileiro apresentou pedido de consultas contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos.
O Brasil formalizou na OMC um pedido de consultas para contestar as tarifas de 25% e 12,5% aplicadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.(Imagem:Ricardo Stuckert/Divulgação).

O governo brasileiro formalizou nesta segunda-feira (27) um pedido de consultas na Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar duas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), as medidas violam compromissos assumidos pelos EUA no comércio internacional e são incompatíveis com o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio de 1994 (GATT 1994).

A iniciativa marca a abertura da primeira etapa do sistema de solução de controvérsias da OMC. Nessa fase, Brasil e Estados Unidos têm a oportunidade de negociar uma solução antes que o caso avance para um painel de julgamento.

O que o Brasil está contestando

As duas medidas questionadas foram adotadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento utilizado pelo governo norte-americano para investigar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos.

A primeira tarifa, de 25%, foi aplicada após uma investigação específica sobre o Brasil. A Casa Branca alegou que o país adota práticas comerciais consideradas desleais em áreas como comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, aplicação da legislação anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal.

Já a segunda tarifa adicional, de 12,5%, integra uma investigação que envolveu cerca de 60 economias. Segundo o governo norte-americano, dezenas de países — entre eles o Brasil — não adotariam mecanismos suficientes para impedir ou fiscalizar a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

Na avaliação do Itamaraty, nenhuma das duas medidas encontra respaldo nas regras da OMC, razão pela qual o Brasil apresentou o pedido formal de consultas e solicitou que os Estados Unidos prestem esclarecimentos sobre a adoção das tarifas.

Por que a disputa pode ter efeito limitado

Embora o acionamento da OMC represente uma reação formal do governo brasileiro, o pedido de consultas não suspende automaticamente as tarifas, nem produz efeitos imediatos para empresas exportadoras.

Caso não haja acordo entre os dois países, o Brasil poderá solicitar a abertura de um painel para analisar a disputa. No entanto, integrantes da diplomacia brasileira já haviam avaliado que o recurso teria caráter principalmente simbólico, servindo para registrar oficialmente a posição do país diante das medidas adotadas por Washington.

Outro fator reduz as chances de uma solução rápida. Desde 2019, o órgão de apelação da OMC está paralisado, após os Estados Unidos bloquearem a nomeação de novos integrantes durante o primeiro mandato de Donald Trump. Na prática, isso dificulta a conclusão definitiva de disputas comerciais dentro da organização.

O precedente que favoreceu o Brasil

O Brasil já obteve uma vitória relevante na OMC. Em 2004, o país venceu a disputa contra os subsídios concedidos pelos Estados Unidos aos produtores de algodão e recebeu autorização para aplicar sanções comerciais de até US$ 830 milhões contra produtos norte-americanos.

O cenário atual, porém, é diferente. A paralisação do sistema de apelação reduziu significativamente a efetividade do mecanismo de solução de controvérsias, tornando mais difícil transformar uma eventual decisão favorável em medidas concretas.

Mesmo assim, o governo brasileiro decidiu levar o caso à OMC para contestar formalmente as tarifas de 25% e 12,5% e sustentar que elas desrespeitam as normas do comércio internacional. Na prática, as tarifas permanecem em vigor, e os próximos passos dependerão das consultas entre os dois países e da eventual abertura de um painel, em um sistema que hoje enfrenta limitações para concluir disputas dessa natureza.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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