A ofensiva de Donald Trump para endurecer as regras eleitorais dos Estados Unidos carrega uma conta potencial que vai além da disputa política. A implementação do SAVE America Act pode gerar US$ 510 milhões em custos adicionais por ciclo eleitoral para governos locais, segundo estimativa da National Association of Counties (NACo), entidade que representa os condados americanos.
O valor dimensiona o desafio financeiro de colocar as novas exigências em funcionamento. Segundo a NACo, o custo estimado seria 11,3 vezes o nível atual de financiamento federal representado pelos US$ 45 milhões disponibilizados no ano fiscal de 2026 por meio do Help America Vote Act (HAVA). A associação ressalva que os US$ 510 milhões não incluem toda a infraestrutura que poderia ser necessária nos estados que utilizam votação pelo correio.
Há outra diferença importante entre a conta projetada e os recursos disponíveis. Na versão analisada pela NACo, o SAVE America Act não prevê financiamento federal dedicado à implementação das novas exigências. As administrações eleitorais locais teriam de lidar com adaptações de sistemas, contratação e treinamento de trabalhadores, integração de bases de dados e orientação dos eleitores.
SAVE America Act esbarra no relógio das eleições
O tamanho da operação ajuda a explicar a dificuldade. Os condados americanos administram mais de 100 mil locais de votação, apoiados por cerca de 770 mil trabalhadores eleitorais certificados. A NACo afirma que as novas regras exigiriam redesenho de sistemas e procedimentos, preparação das equipes e comunicação com os eleitores.
A associação estima ainda que uma implementação adequada exigiria entre 18 e 24 meses. O prazo ganha relevância diante das eleições de meio de mandato de novembro de 2026 e transforma a discussão em uma questão não apenas política, mas também de capacidade operacional.
A proposta estabelece exigências como comprovação documental de cidadania para o registro eleitoral federal e identificação com foto para votar. Uma versão anterior, o SAVE Act, passou pela Câmara em fevereiro por 218 votos a 213. Em 22 de julho, a Câmara aprovou o projeto de autorização de defesa com o texto integral do SAVE America Act anexado. Separadamente, também avançou um marco de reconciliação que prevê incentivos relacionados a disposições semelhantes às do projeto.
Trump aumenta cobrança, mas Senado continua sendo obstáculo
O Senado entrou no recesso de agosto sem entregar a aprovação exigida por Trump. A dificuldade também passa pela matemática legislativa: os republicanos contam com 52 cadeiras no Senado, enquanto democratas e independentes que integram seu caucus somam 48. Pela via legislativa ordinária, a barreira do filibuster dificulta a aprovação sem apoio adicional.
A resistência não está restrita aos democratas. A republicana Lisa Murkowski, do Alasca, declarou apoiar a identificação de eleitores, mas se opôs ao SAVE America Act, argumentando que o texto reduziria a capacidade dos estados de adaptar seus sistemas eleitorais e criaria dificuldades de implementação.
Trump elevou o tom em agosto ao não descartar a possibilidade de declarar uma emergência de segurança nacional relacionada às eleições caso o Congresso não entregue as mudanças que defende. A declaração, porém, não altera o estágio legislativo do SAVE America Act nem transforma suas exigências em regras vigentes.
Para os governos locais, essa distinção é decisiva. Os US$ 510 milhões não são gasto aprovado nem estimativa oficial do governo federal: representam a projeção da NACo para custos adicionais por ciclo caso as exigências sejam implementadas. Com um prazo estimado de 18 a 24 meses para adaptação e as eleições de novembro se aproximando, permanecem abertas duas questões concretas: se o Congresso transformará as propostas em lei e como uma eventual implementação seria financiada.