O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na quarta-feira (5) que pretende telefonar para o `, Donald Trump, para defender uma reunião entre os integrantes permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) diante das guerras em curso. A iniciativa ocorre em meio à escalada da crise diplomática entre Brasília e Washington, mas esbarra em uma limitação pouco discutida: o Brasil não ocupa assento no Conselho de Segurança da ONU em 2026 e, por isso, não participa das votações que podem transformar um apelo político em uma decisão internacional.
A declaração foi dada durante entrevista ao canal Os Três Elementos. Lula afirmou que já conversou com o presidente da China, Xi Jinping, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sobre a necessidade de reunir o Conselho de Segurança e disse que também pretende procurar Trump.
“O mundo está precisando de paz, e não de guerra. Semana passada, eu liguei para o Xi Jinping para falar sobre a necessidade do Conselho de Segurança se reunir. Ontem falei com meu amigo Putin. Vou falar com o Trump também. São cinco pessoas. Se reúnam, tomem café, uísque, qualquer coisa. E decidam o que fazer com o mundo”, afirmou o presidente.
Apesar da declaração pública, interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que ainda não há articulação formal nem data prevista para uma conversa entre Lula e Trump. Segundo fontes ouvidas sob reserva, o contato continua sendo tratado como uma possibilidade, tanto para discutir os conflitos internacionais quanto a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
O Brasil defende a reunião, mas quem decide são os integrantes do Conselho
A proposta de Lula tem peso político, mas o funcionamento do Conselho de Segurança da ONU segue regras que vão além da vontade dos chefes de Estado. O órgão é composto por 15 países, sendo cinco membros permanentes — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — e dez eleitos por mandatos temporários.
Para que uma resolução seja aprovada, são necessários pelo menos nove votos favoráveis, além da ausência de veto de qualquer um dos cinco integrantes permanentes. Isso significa que, mesmo que Lula converse com Trump, Xi Jinping e Putin, uma eventual decisão dependerá do apoio dos demais membros e das regras de votação do Conselho, não apenas do entendimento entre as grandes potências.
Há ainda uma curiosidade que ajuda a explicar o peso desse sistema. Um único veto de um membro permanente é suficiente para impedir a aprovação de uma resolução, mesmo que os outros 14 integrantes votem a favor. Criado em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, esse mecanismo permanece como um dos pilares da governança internacional e explica por que acordos políticos nem sempre se transformam em decisões da ONU.
Brasil já foi o país com mais mandatos rotativos, mas hoje está fora da votação
Outro aspecto pouco lembrado é que o Brasil não integra atualmente o Conselho de Segurança da ONU. O país encerrou seu mandato como membro não permanente no fim de 2023 e, desde então, participa das discussões internacionais apenas por meio da diplomacia, sem direito a voto nas deliberações do colegiado.
A comparação chama atenção. O Brasil é o país que mais vezes ocupou um assento rotativo no Conselho de Segurança entre todas as nações sem vaga permanente, acumulando 11 mandatos desde a criação da ONU. Ainda assim, justamente no momento em que Lula tenta mobilizar os integrantes do órgão, o país não faz parte da composição responsável pelas votações.
Na prática, isso significa que o governo brasileiro pode defender uma reunião, buscar apoio político e dialogar com líderes mundiais, mas qualquer avanço institucional dependerá exclusivamente dos países que hoje ocupam as cadeiras do Conselho e têm direito a voto.
Crise com os Estados Unidos aumenta o peso político da ligação
A intenção de Lula de conversar com Trump ocorre em meio ao agravamento das relações entre Brasil e Estados Unidos. Na terça-feira (4), o Departamento de Estado norte-americano alterou o status do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, revogando seu visto de múltiplas entradas e substituindo-o por um documento válido para apenas uma entrada no país.
Na sequência, o governo dos Estados Unidos prorrogou por mais um ano o chamado estado de emergência relacionado ao Brasil. Embora a medida não produza efeitos práticos imediatos, ela pode servir como fundamento jurídico para futuras sanções ou outras ações, conforme avaliação de integrantes do governo brasileiro.
Caso a conversa entre Lula e Trump ocorra, ela poderá abordar tanto os conflitos internacionais quanto a atual relação entre Brasília e Washington. Independentemente desse diálogo, porém, qualquer decisão no Conselho de Segurança da ONU continuará condicionada às regras de votação do órgão e aos países que hoje ocupam seus assentos, realidade que evidencia o principal desafio da iniciativa brasileira.