O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) deflagrou nesta quinta-feira (18) a Operação Conto da Sorte, que investiga um suposto esquema de apostas online que teria utilizado uma loteria municipal para operar em escala nacional. A ação teve apoio do Ministério Público do Ceará (MPCE), que cumpriu um mandado de busca e apreensão em Fortaleza.
As investigações apontam que empresas ligadas ao grupo arrecadaram cerca de R$ 415 milhões em apenas dez meses, segundo informações apresentadas pela própria Prefeitura de Bodó (RN). Além disso, o município também informou ter recebido aproximadamente R$ 8,3 milhões em repasses decorrentes da atividade.
O caso ultrapassa a dimensão de uma investigação sobre apostas. Assim, o foco dos investigadores está na suspeita de que uma estrutura pública municipal tenha sido utilizada para conferir legitimidade a plataformas que atuavam em todo o país. Essa estrutura teria ampliado o alcance de operações atualmente investigadas por lavagem de dinheiro e exploração irregular de jogos.
O Ministério Público sustenta que a legislação brasileira reserva à União a competência para regulamentar loterias e apostas, entendimento já consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O alcance da investigação ultrapassa o caso de Bodó. Além disso, a apuração coloca sob escrutínio um modelo que passou a ser observado por órgãos de controle após municípios tentarem criar estruturas próprias para atuar no mercado de apostas. O resultado do caso poderá influenciar futuras discussões sobre os limites da atuação municipal em um setor que movimenta bilhões de reais por ano no país.
Segundo o Ministério da Fazenda, a autorização vinculada ao município de Bodó foi posteriormente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal após questionamento do governo federal. Mesmo assim, de acordo com a investigação, empresas credenciadas pela estrutura municipal continuaram atuando no mercado de apostas.
Operação Conto da Sorte investiga modelo que expandiu apostas para todo o país
Segundo o Ministério Público, o grupo utilizaria como âncora institucional a Lotseridó, órgão criado pela Prefeitura de Bodó, no interior potiguar.
A suspeita é que essa estrutura tenha servido para dar aparência de legalidade a dezenas de plataformas digitais que operavam nacionalmente. Ademais, essas plataformas atraiam usuários para apostas online sem autorização federal.
De acordo com a Receita Federal, a Lotseridó encerrou suas atividades em outubro de 2025. Antes disso, porém, teria credenciado empresas de apostas de quota fixa que permaneceram operando sem autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão federal responsável pela regulação do setor.
Durante a operação, foram cumpridos mandados em Pernambuco, São Paulo e Ceará contra sete pessoas físicas e seis pessoas jurídicas. A força-tarefa mobilizou seis promotores de Justiça, 19 servidores dos Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e Pernambuco, 16 policiais civis, 12 policiais militares, além de 10 servidores do Ministério da Fazenda e equipes da Receita Federal.
Como funcionava a estrutura financeira investigada
As investigações apontam que os responsáveis pelo esquema criaram uma rede de empresas destinadas a movimentar recursos e ocultar os verdadeiros controladores das operações.
Entre os principais indícios apontados pelo Ministério Público estão:
- Utilização de empresas registradas em nome de laranjas;
- Uso de beneficiários de programas sociais e parentes dos organizadores como sócios formais;
- Procurações que mantinham o controle bancário nas mãos dos líderes do grupo.
A apuração identificou ainda empresas registradas em endereços inexistentes, salas vazias e escritórios virtuais. Em alguns casos, a movimentação financeira teria continuado mesmo após a baixa formal dos CNPJs na Receita Federal. Portanto, para os investigadores, estruturas desse tipo dificultam a identificação dos verdadeiros beneficiários das operações financeiras e representam um dos mecanismos mais utilizados em esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo grandes volumes de recursos digitais.
Um dos pontos que mais chamou atenção dos investigadores foi a identificação de 21 empresas registradas em um mesmo endereço considerado fantasma em Bodó. Esse fato reforça as suspeitas de uma estrutura criada para pulverizar operações financeiras.
Além da arrecadação de centenas de milhões de reais atribuída às plataformas, a investigação aponta que uma das empresas vinculadas ao grupo registrou R$ 4,6 bilhões em créditos ao longo de 2025. Este valor é considerado relevante para a dimensão formal da estrutura empresarial identificada pelos órgãos de controle.
Em Brasília, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as investigações preliminares indicam movimentação de aproximadamente R$ 50 bilhões por meio de 37 empresas que atuariam irregularmente no mercado de apostas. Segundo ele, os mandados cumpridos nesta fase da operação deverão permitir a identificação do valor exato movimentado pelo grupo investigado.
Golpes digitais e patrimônio bilionário entraram no radar da investigação
A investigação ganhou dimensão ainda maior porque não se limita à exploração irregular de apostas. Os investigadores apuram se a credibilidade de páginas governamentais foi utilizada para direcionar usuários a plataformas investigadas, ampliando artificialmente o alcance das operações na internet.
De acordo com o Ministério Público, os envolvidos teriam invadido sistemas de órgãos públicos e inserido códigos em páginas com domínios de alta credibilidade, como sites terminados em “.gov.br” e “.edu.br”. O objetivo seria influenciar mecanismos de busca e transmitir confiança aos usuários que acessavam as plataformas investigadas.
Segundo a apuração, a adulteração criava arquivos de indexação capazes de direcionar robôs de busca e usuários para páginas de apostas. Isso conferia uma aparência de legitimidade a operações que agora são alvo da investigação.
Em novembro de 2025, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 145 milhões em contas bancárias, investimentos, veículos, imóveis e aplicações financeiras dos investigados. Assim, as medidas incluíram sequestro, bloqueio e indisponibilidade de bens para preservar recursos que poderão ser utilizados em eventual reparação de danos e impedir a ocultação de patrimônio.
A operação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, exploração de jogo de azar, loteria não autorizada, induzimento à especulação, associação criminosa, além de possíveis crimes contra as relações de consumo. A dimensão financeira do caso transformou a Operação Conto da Sorte em uma das maiores investigações recentes sobre apostas online no país. O caso ainda tem potencial de influenciar o debate sobre fiscalização, regulação e os limites da participação de estruturas municipais em um mercado que movimenta bilhões de reais todos os anos.