Liderar as pesquisas de intenção de voto costuma ser o principal passo para quem pretende disputar uma eleição. Com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), porém, aconteceu o contrário. Depois de aparecer na frente nos cenários para o Governo de Minas Gerais, o maior desafio do parlamentar deixou de ser conquistar eleitores e passou a ser convencer o próprio partido a formalizar sua candidatura.
Nesta quarta-feira (29), o Republicanos anunciou que não lançará Cleitinho como candidato ao governo mineiro. Em nota assinada pelas executivas estadual e nacional, a legenda afirmou que o senador nunca tomou uma decisão definitiva para disputar o cargo e atribuiu a mudança de rumo aos sucessivos recuos e à ausência dele na convenção estadual realizada no último sábado (25).
Pouco depois, a assessoria do senador reagiu e informou que a candidatura continua mantida, criando uma situação incomum na política brasileira. Hoje coexistem três fatos: Cleitinho lidera as pesquisas de intenção de voto, afirma que pretende disputar o governo e, ao mesmo tempo, enfrenta uma decisão oficial do próprio partido dizendo que sua candidatura nunca foi formalmente assumida.
Quem é Cleitinho e por que sua candidatura virou uma incógnita
Eleito senador por Minas Gerais em 2022, Cleitinho ganhou projeção nacional com um discurso voltado ao combate aos privilégios da classe política, linguagem popular e forte presença nas redes sociais. Desde o início das articulações para as eleições de 2026, seu nome passou a aparecer entre os favoritos ao Palácio Tiradentes, sede do governo estadual.
Apesar da vantagem nas pesquisas, o senador passou semanas evitando confirmar se realmente disputaria o governo. A indefinição gerou desconforto entre dirigentes do Republicanos, que afirmam ter adiado decisões estratégicas enquanto aguardavam uma posição definitiva.
Na terça-feira (28), poucas horas após a divulgação da pesquisa Quaest que o colocou na liderança da disputa, Cleitinho publicou um vídeo produzido com inteligência artificial. Nas imagens, versões recriadas digitalmente de seu pai e de seu irmão, ambos falecidos, aparecem incentivando o senador a “ir em frente” e “fazer o que tem que ser feito”. O próprio parlamentar admitiu que tinha medo da responsabilidade de disputar o governo.
Para aliados, o vídeo representava o sinal de que a decisão finalmente havia sido tomada. A resposta do Republicanos, porém, foi exatamente a oposta.
Quando liderar as pesquisas não basta
As pesquisas de intenção de voto mostram quem está na frente da preferência do eleitor, mas não substituem as etapas exigidas para uma candidatura existir oficialmente. O caso de Cleitinho tornou essa diferença evidente. Mesmo aparecendo na liderança dos levantamentos para o Governo de Minas Gerais, o senador ainda depende de uma decisão do próprio Republicanos para transformar a vantagem nas pesquisas em uma candidatura formal. É uma situação incomum, em que o favoritismo eleitoral surgiu antes da confirmação política necessária para levar um nome à urna.
Em nota, o Republicanos afirmou que ofereceu todas as condições para lançar Cleitinho ao governo, manteve diálogo durante meses e adiou decisões para preservar a possibilidade da candidatura. Segundo a legenda, porém, “uma candidatura exige, antes de tudo, a decisão firme de quem pretende disputá-la”, o que, de acordo com o partido, nunca aconteceu.
A sigla também afirmou que a ausência do senador na convenção estadual produziu “consequências inevitáveis”. Diante desse cenário, decidiu reorganizar sua estratégia e anunciou apoio ao ex-secretário de Governo de Minas Gerais Marcelo Aro (PP).
Esse detalhe ajuda a entender o tamanho da ruptura. O Republicanos não apenas deixou de lançar Cleitinho. A legenda abriu mão de ter um candidato próprio ao governo para apoiar um nome de outro partido, indicando que a reorganização política da sigla já havia começado.
Por que Cleitinho ainda depende do Republicanos
Embora a assessoria afirme que a candidatura está mantida, uma declaração pública não transforma, por si só, alguém em candidato.
Pelas regras eleitorais, quem pretende disputar uma eleição majoritária precisa cumprir uma série de exigências legais. Entre elas estão a filiação ao partido dentro do prazo previsto e a escolha formal pela legenda durante as convenções partidárias. O prazo de filiação para as eleições de 2026 terminou em 4 de abril.
Na prática, Cleitinho pode deixar o Republicanos sem perder o mandato de senador. No entanto, uma eventual mudança de partido agora não permitiria disputar o governo por outra legenda, já que o prazo legal para filiação expirou meses antes da eleição.
As convenções partidárias ainda estão em andamento. Isso significa que o cenário permanece em tramitação e poderá ter novos desdobramentos até o encerramento desse processo.
Um caso raro na política brasileira
O Brasil já viu nomes competitivos desistirem de disputar eleições mesmo aparecendo bem colocados nas pesquisas. Em 2018, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa retirou sua pré-candidatura à Presidência. Naquele mesmo ano, Luciano Huck também decidiu não entrar na disputa. Em 2022, foi a vez de João Doria abandonar a corrida presidencial após perder apoio interno no PSDB.
O caso de Cleitinho, porém, tem uma característica diferente. Nos exemplos anteriores, os próprios pré-candidatos desistiram ou perderam viabilidade política antes do início da campanha. Em Minas Gerais, o senador afirma que continua disposto a disputar o governo e lidera as pesquisas de intenção de voto. O impasse surgiu porque o partido ao qual ele está filiado afirma que essa candidatura nunca foi oficialmente assumida.
É justamente essa combinação que torna o episódio incomum. Cleitinho conquistou a preferência de parte do eleitorado antes de resolver a etapa que antecede qualquer campanha: a confirmação da própria candidatura. Até que esse impasse seja solucionado, o principal desafio do senador não estará nas pesquisas, mas na decisão política que precisa ser tomada dentro do Republicanos.