Antes de divulgar seus resultados financeiros ao mercado, a Americanas mantinha internamente um demonstrativo identificado como “Versão 0”, que, segundo a Polícia Federal (PF), reunia os números antes das alterações investigadas. A partir dele, eram produzidas novas versões do balanço até o fechamento contábil. O fluxo aparece na decisão da Justiça Federal que embasa a segunda fase da Operação Disclosure e ajuda a explicar como, de acordo com a investigação, eram realizadas as manipulações financeiras sob apuração.
Mais do que revelar novos codinomes, os documentos analisados pela PF mostram que os próprios funcionários diferenciavam o resultado original da empresa das versões que seriam posteriormente modificadas. Esse é um dos aspectos descritos pela investigação para reconstruir o funcionamento das supostas fraudes contábeis que, segundo a Polícia Federal, teriam perdurado por mais de uma década.
O balanço original continuava existindo
Segundo a decisão judicial, o primeiro demonstrativo preparado pela equipe financeira era chamado de “Versão 0” ou simplesmente “V0”.
Em mensagens reproduzidas pela investigação também aparece a expressão “a vida como ela é”, utilizada, conforme a PF, para identificar o desempenho da companhia antes das alterações realizadas durante o fechamento dos balanços.
Depois dessa etapa surgiam novas versões, identificadas como V1, V2 e V3. A Polícia Federal afirma que era nessas versões que passavam a ser incorporados os lançamentos hoje investigados como fraudulentos, incluindo operações relacionadas ao risco sacado e às chamadas Verbas de Propaganda Cooperada (VPC).
Na prática, a distinção entre essas versões reforça a linha investigativa da PF de que os ajustes descritos na apuração não decorreriam de inconsistências descobertas depois do fechamento, mas de alterações realizadas durante a elaboração dos demonstrativos. Essa é uma das hipóteses centrais que ainda será analisada ao longo do processo judicial.
Como um balanço se transformava em outro
Outro aspecto revelado pela decisão é que expressões como “verdes e vermelhos”, “kit de fechamento”, “botões”, “oportunidades” e “alavancas” faziam parte de diferentes etapas da rotina contábil investigada.
Segundo a Polícia Federal, o documento conhecido como “verdes e vermelhos” reunia as projeções de lucro e margem elaboradas por analistas de instituições financeiras. Essas expectativas eram utilizadas, conforme a investigação, como referência para calcular os ajustes que seriam incorporados antes da divulgação dos resultados.
Ao final desse processo aparecia o chamado “kit de fechamento”, conjunto de documentos que consolidava os números apresentados ao mercado.
Vista em conjunto, a documentação analisada pela PF descreve um fluxo composto por um demonstrativo inicial, versões sucessivas com alterações investigadas e um fechamento final, permitindo aos investigadores reconstruir como as operações eram executadas internamente.
Por que os codinomes mudaram ao longo dos anos
A investigação também aponta que a linguagem utilizada dentro da companhia foi sendo modificada ao longo do tempo.
Segundo depoimento reproduzido na decisão, documentos relacionados às Verbas de Propaganda Cooperada (VPC) eram inicialmente chamados de “Cartas B”, em contraposição às “Cartas A”, consideradas documentos legítimos.
Posteriormente, esses registros passaram a receber nomes como “botões”, “oportunidades” e “alavancas”.
Para a Polícia Federal, a adoção de novos codinomes pode ter contribuído para incorporar essas práticas ao cotidiano da empresa e dificultar que funcionários de níveis inferiores identificassem a natureza das operações que executavam, conclusão que integra a representação policial e ainda será analisada pela Justiça.
A investigação avançou para uma nova fase
O caso tornou-se público em 11 de janeiro de 2023, quando a Americanas informou ao mercado inconsistências contábeis bilionárias. O episódio levou à recuperação judicial da companhia e deu origem às investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.
Na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada em junho deste ano, a PF cumpriu nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Justiça Federal também autorizou o bloqueio de até R$ 54 bilhões em bens e ativos.
Diferentemente da primeira etapa, voltada aos antigos executivos da varejista, a nova fase busca apurar a eventual participação de acionistas de referência e representantes de instituições financeiras nas supostas fraudes.
Segundo a investigação, o conjunto de documentos analisados mostra que o demonstrativo identificado internamente como “Versão 0” servia como ponto de partida para versões posteriores, nas quais eram incorporados os ajustes hoje investigados pela Polícia Federal. É esse fluxo, descrito na decisão judicial, que passou a integrar uma das principais linhas da apuração sobre o escândalo contábil envolvendo a Americanas.