A relação entre Jaques Wagner (PT-BA) e o Banco Master ganhou uma nova acusação após a divulgação de um relato de Daniel Vorcaro sobre supostos pagamentos de R$ 3 milhões mensais. A afirmação consta de uma proposta de colaboração premiada rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Vorcaro afirmou que o grupo político ligado ao senador recebia R$ 3 milhões por mês em vantagens indevidasrelacionadas à operação do Credcesta na Bahia. Segundo o relato divulgado pelo UOL, R$ 2 milhões mensais seriam repassados à PKL One e R$ 1 milhão seria entregue em espécie.
Há uma limitação importante nessa acusação. Vorcaro declarou que não presenciou o suposto acerto e afirmou ter tomado conhecimento dele por meio de Augusto Lima, seu ex-sócio.
Jaques Wagner e Master já estavam sob apuração da PF
Antes da divulgação desse relato, a PF já investigava relações entre Jaques Wagner, pessoas de seu entorno e integrantes do Master. A apuração levou a buscas em junho e envolve suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Wagner nega irregularidades.
Entre os elementos analisados está uma transferência de R$ 3,5 milhões em 17 de outubro de 2025, feita pela PKL One à BN Financeira. Segundo a decisão judicial que autorizou buscas, a empresa destinatária do pagamento está ligada ao núcleo familiar de Wagner. Reportagens identificam a companhia como pertencente a Carolina Sodré, mulher de Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado do senador.
A PF também apura a possível aquisição de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões para Wagner. Relatórios policiais incluem mensagens, encontros e outras relações entre o senador e pessoas ligadas ao Master.
Esses elementos pertencem a uma frente investigativa própria e não equivalem à comprovação dos R$ 3 milhões mensais narrados por Vorcaro.
Credcesta liga história de 2018 ao caso Master
A origem do negócio citado por Vorcaro remonta a 2018. Em 11 de abril daquele ano, a Ebal, estatal responsável pela rede Cesta do Povo, foi arrematada pela NGV por R$ 15 milhões. A empresa foi a única a apresentar proposta no leilão.
Um detalhe da cronologia chama atenção: apenas 16 dias depois, em 27 de abril, o então governador Rui Costa assinou dois decretos que alteraram regras relacionadas ao Credcesta, cartão consignado destinado a servidores públicos da Bahia.
Wagner confirmou anteriormente que participou das negociações para a compra da Ebal com Augusto Lima e Ignacio Morales. Ao falar à Folha de S.Paulo em janeiro de 2026 sobre a entrada posterior de Daniel Vorcaro no negócio, o senador afirmou que isso ocorreu com o Banco Máxima, instituição que mais tarde passou a se chamar Banco Master.
Na mesma entrevista, oito meses antes da divulgação da acusação atual, Wagner foi questionado sobre a possibilidade de Vorcaro fechar uma delação. “Se ele delatar eu acho ótimo. Tô aqui tranquilo e calmo”, afirmou. A declaração foi dada naquele contexto anterior e não como resposta às acusações reveladas agora.
Defesa chama relato de Vorcaro de “obra de ficção”
A defesa de Augusto Lima rejeitou as declarações. Em nota, afirmou considerar as informações “um completo absurdo, mentirosas, desconexas da realidade e delirantes” e classificou o relato como “uma obra de ficção já rechaçada pelas autoridades competentes”.
Vorcaro também atribuiu a Wagner uma participação oculta na operação do Credcesta. O senador nega irregularidades e, em manifestações anteriores, reconheceu conhecer Augusto Lima, mas negou envolvimento com a empresa de sua nora.
O caso Jaques Wagner e Master reúne, portanto, duas camadas que permanecem distintas: de um lado estão movimentações financeiras, mensagens e outros elementos sob investigação da PF; de outro, a acusação de Vorcaro sobre supostos R$ 3 milhões mensais, apresentada em uma proposta de colaboração rejeitada por PF e PGR.