O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira (1º) que acompanha “muito de perto” a eleição presidencial brasileira. Ele classificou o pleito como “muito importante”. No entanto, ele não declarou apoio formal a nenhum candidato. A fala abre uma questão que vai além da votação: até onde Washington poderia ir depois das urnas caso a relação política com o próximo governo se deteriore?
A resposta passa por uma divisão fundamental. Trump dispõe de instrumentos para alterar a relação dos Estados Unidos com o Brasil, mas não decide quem assume a Presidência brasileira. Cabe à Justiça Eleitoral apurar o pleito e, ao final do processo, diplomar os candidatos eleitos. Uma eventual reação política ou diplomática de Washington ao resultado, portanto, não substituiria a competência das instituições eleitorais brasileiras.
Trump e eleição brasileira esbarra no TSE, mas não termina nas urnas
O poder de Washington aparece principalmente depois dessa fronteira institucional. O governo americano pode tomar decisões comerciais e diplomáticas que afetem a relação bilateral. Além disso, há um precedente recente: em julho, os Estados Unidos estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações originárias do Brasil. Essas tarifas foram decorrentes de investigações conduzidas sob a Seção 301 da legislação comercial americana.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), considerando como base as exportações brasileiras aos Estados Unidos em 2024, as novas medidas alcançaram 23,1% dos embarques brasileiros ao mercado americano. Dentro desse total, 16,5% das exportações ficaram simultaneamente sujeitas às duas medidas. Assim, a sobretaxa adicional acumulada foi de 37,5%.
O efeito das tarifas já exigiu uma resposta dentro do Brasil. Em agosto, o governo regulamentou a possibilidade de prorrogar excepcionalmente por mais um ano determinados prazos do regime de drawback suspensão para empresas que comprovem compromissos de exportação afetados pelas tarifas adicionais americanas. A medida alcança atos que cumpram os requisitos definidos pelo MDIC. Além disso, oferece prazo adicional para essas operações.
Comércio mostra onde uma crise política pode ganhar efeito econômico
Isso não significa que Trump adotará novas tarifas por causa do resultado das urnas. Não há anúncio de uma medida desse tipo. O precedente comercial serve para mostrar quais instrumentos Washington já utilizou na relação com o Brasil. No entanto, ele não serve para antecipar uma nova retaliação.
No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 17,4 bilhões aos Estados Unidos. Houve uma queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o MDIC. Na mesma comparação, a participação americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4%.
Dados consolidados posteriores mostram que os embarques continuaram abaixo do ano anterior. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos chegaram a US$ 24,10 bilhões, queda de 9,7% frente ao mesmo intervalo de 2025. Além disso, a indústria de transformação respondeu por US$ 20,07 bilhões, ou 83,3% das vendas brasileiras ao mercado americano no período.
Para as empresas brasileiras expostas ao mercado americano, é nessa frente que uma eventual deterioração da relação bilateral pode ganhar consequência prática. O tamanho de qualquer efeito dependeria das medidas efetivamente adotadas, dos produtos atingidos e de eventual resposta do Brasil.
A tensão política já atravessa essa relação. Lula afirmou anteriormente não querer uma “briga” com Trump e confirmou que o Brasil havia negado vistos a dois funcionários americanos. Segundo ele, esses funcionários poderiam se intrometer nas eleições. Nesta quinta-feira, a Reuters também informou que autoridades brasileiras de inteligência relataram a representantes europeus suposta interferência estrangeira antes do pleito. Integrantes do governo americano negaram interferência de Washington. A alegação, portanto, permanece atribuída às autoridades brasileiras e não deve ser apresentada como fato comprovado.
Próximo presidente herdará negociação com os EUA ainda aberta
Há uma questão econômica que independe de quem vencer. Na quarta-feira (30), representantes de Brasil e Estados Unidos se reuniram em Milwaukee para discutir a agenda comercial bilateral. Segundo o MDIC, Washington deverá apresentar nas próximas semanas uma proposta envolvendo questões tarifárias e não tarifárias. Além disso, os dois países acertaram criar um grupo de trabalho para discutir um possível acordo.
O resultado eleitoral definirá quem conduzirá essa interlocução pelo Brasil. Se Lula permanecer na Presidência, caberá ao seu governo continuar a negociação em andamento. Se outro candidato vencer, o novo governo assumirá essa agenda. Não há base, neste momento, para afirmar que qualquer resultado levará à retirada, manutenção ou ampliação das tarifas americanas.
Na equação Trump e eleição brasileira, é essa pendência que deixa consequência concreta para depois das urnas: o próximo governo receberá uma negociação comercial com Washington ainda sem desfecho. Enquanto isso, 23,1% das exportações brasileiras aos EUA, tomando o comércio de 2024 como base, estão alcançadas pelas novas sobretaxas da Seção 301.