A campanha de Lula chegou ao último dia antes da votação com uma combinação incomum de acontecimentos. Enquanto uma caminhada ocupava a rua Augusta, em São Paulo, Estados Unidos e Austrália mantinham repartições diplomáticas fechadas e o PT levava ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido para investigar a decisão americana. Os episódios ocorreram simultaneamente, mas não há evidência pública de relação causal entre eles.
Segundo os organizadores, 150 mil apoiadores participaram da caminhada entre a avenida Paulista e a praça Roosevelt. A estimativa é da organização e não corresponde a uma contagem independente. Durante o ato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que acredita em vitória no primeiro turno e classificou a eleição como uma disputa entre “a democracia e a barbárie”.
A demonstração de força nas ruas, porém, não permite antecipar o resultado das urnas. Na pesquisa CNT/MDA divulgada neste sábado, Lula registra 47,8% dos votos válidos, contra 42,1% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Para encerrar a disputa no primeiro turno, um candidato precisa obter mais da metade dos votos válidos.
Por que representações estrangeiras fecharam antes da eleição
O elemento mais incomum dessa reta final aconteceu fora da campanha. Estados Unidos e Austrália suspenderam serviços presenciais em suas representações diplomáticas no Brasil às vésperas da votação.
O governo americano alegou “preocupações com a segurança”, sem detalhar publicamente qual ameaça teria provocado a decisão. A Austrália também adotou restrições e mencionou o ambiente de segurança durante o período eleitoral. O fechamento temporário não significa rompimento das relações diplomáticas com o Brasil.
A Polícia Federal chegou a fazer buscas após receber informações sobre possíveis ameaças contra instalações dos Estados Unidos. Até sexta-feira (2), porém, a corporação informou não ter encontrado elementos que confirmassem a existência do risco relatado. A apuração permanecia em andamento.
Esse limite é importante: as informações disponíveis não permitem afirmar que as representações tenham fechado por causa de uma ameaça comprovada ligada à eleição.
Campanha de Lula leva decisão dos EUA ao TSE
O episódio ganhou dimensão eleitoral porque a campanha de Lula pediu ao TSE que a suspensão americana fosse incluída na Ação de Investigação Judicial Eleitoral que apura possível interferência externa nas eleições brasileiras.
O pedido não significa que o TSE tenha reconhecido interferência dos Estados Unidos. A campanha apresentou a decisão americana como um fato que considera relevante para a investigação; cabe à Justiça Eleitoral avaliar o requerimento.
Enquanto isso, a disputa eleitoral segue determinada pelos votos deste domingo. A CNT/MDA coloca Lula abaixo dos 50% dos votos válidos no levantamento divulgado neste sábado, e a própria campanha reconhece como pontos de atenção a migração de eleitores de outros candidatos de direita para Flávio Bolsonaro e a abstenção entre eleitores de menor renda.
Assim, a campanha de Lula termina com uma fotografia pouco convencional: multidão na Augusta, expectativa declarada de vitória no primeiro turno, representações estrangeiras fechadas e uma nova questão submetida ao TSE. O que existe até agora sobre o episódio americano é uma investigação em andamento e um pedido da campanha à Justiça Eleitoral, não uma conclusão de interferência na votação.