A relação entre Vorcaro e Lula voltou ao centro das atenções após o ex-banqueiro relatar um suposto pagamento de R$ 30 milhões em dinheiro vivo para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo reportagem da revista Veja, divulgada nesta sexta-feira (9), o dinheiro estaria relacionado a negociações para facilitar o acesso do Banco Master a recursos de fundos de pensão federais. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) consideraram insuficientes as provas apresentadas pelo empresário.
O relato menciona o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o dirigente do Instituto Lula Paulo Okamotto e outros intermediários que teriam participado das articulações. Além do valor destinado à produção audiovisual, Vorcaro afirmou ter realizado repasses adicionais associados ao instituto, sem especificar os montantes. As acusações foram apresentadas durante tratativas de colaboração premiada e não tiveram comprovação independente nos elementos divulgados.
Vorcaro cita Lula em relato sobre R$ 30 milhões para documentário
De acordo com a Veja, Vorcaro afirmou que seu então sócio Augusto Lima participou das negociações com Vaccari e Okamotto. Em um dos áudios divulgados, o ex-banqueiro menciona adiantamentos feitos ao dirigente do Instituto Lula e solicitações de recursos para a produção cinematográfica, identificada como o documentário Lula, dirigido pelo cineasta Oliver Stone.
Vorcaro também comparou a operação ao patrocínio concedido pelo Banco Master ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo o relato, os valores relacionados à produção sobre Lula teriam sido repassados fora dos mecanismos regulares de patrocínio, diferentemente da operação associada ao filme sobre Bolsonaro.
O ex-banqueiro afirmou que os supostos pagamentos estavam vinculados à tentativa de obter acesso a investimentos de fundos de pensão federais, embora os registros divulgados não comprovem que as transferências tenham ocorrido nos termos apresentados.
A defesa de Vorcaro teria informado possuir mensagens, registros de retiradas de dinheiro e identificação de pessoas e locais envolvidos nas supostas entregas. Esses elementos, entretanto, não foram considerados suficientes pelas autoridades para sustentar a proposta de colaboração premiada.
Negociações envolveriam Vaccari, Padilha e intermediários
As articulações descritas pela revista também mencionam Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, e Olavo Noleto, que ocupava o cargo de secretário-executivo da pasta. Vorcaro relatou encontros com integrantes do governo e afirmou ter participado de pelo menos dois jantares com Padilha.
Um intermediário identificado como Júlio teria atuado na aproximação entre o Banco Master e dirigentes de entidades previdenciárias. Mensagens obtidas pela Veja também mostram o empresário Walfrido dos Mares Guia informando a Vorcaro que Noleto havia demonstrado satisfação após um contato com o ex-banqueiro. A comunicação, isoladamente, não comprova participação em irregularidades.
Segundo a versão apresentada por Vorcaro, os intermediários exigiam uma comissão de 10% sobre os recursos que o Banco Master conseguisse captar junto à Previ, Petros e Postalis, entidades de previdência complementar vinculadas, respectivamente, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.
Em abril de 2024, mensagens entre Vorcaro e Júlio mencionavam contatos com dirigentes desses fundos e cobranças por avanços nas negociações. O ex-banqueiro questionava operações com a Petros e o Postalis, enquanto o intermediário indicava a possibilidade de reuniões relacionadas à Previ.
Mensagens citam R$ 500 mil e tentativa de encontro com Lula
Outro episódio relatado pela Veja ocorreu em 29 de abril de 2024, quando mensagens mencionaram uma suposta cobrança de R$ 500 mil feita por Júlio. A data foi associada, na reportagem, à entrada do Banco Master em uma relação de instituições habilitadas para determinadas operações previdenciárias.
Um levantamento documental do projeto O Novelo Master, entretanto, aponta uma distinção entre empresas do grupo. Em maio de 2024, a Master S.A. Corretora aparecia em uma versão oficial da lista, enquanto o Banco Master S/A não constava na categoria de emissor elegível. O banco passou a aparecer nessa condição em uma relação de abril de 2025.
A diferença entre os registros exige atenção porque a lista utilizada pelos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) não equivale a uma autorização para investimentos da Previ, Petros ou Postalis, que seguem regras próprias. Os documentos também não demonstram, isoladamente, que a suposta cobrança de R$ 500 mil tenha resultado em pagamento ou favorecimento administrativo.
Em outubro de 2024, mensagens atribuídas ao intermediário Júlio mencionaram a possibilidade de um encontro de Vorcaro com Lula. Ele afirmou que o presidente poderia receber o empresário e orientou que procurasse Noleto para tratar da agenda. Os diálogos não comprovam que aquela reunião específica tenha ocorrido ou que Lula tivesse conhecimento das negociações relatadas.
Banco Master não conseguiu concluir negócios pretendidos com fundos
Apesar das articulações, as operações pretendidas pelo Banco Master com os fundos federais não teriam avançado. Em junho de 2025, Vorcaro demonstrou insatisfação com a ausência de resultados após mais de um ano de tentativas e chegou a sinalizar o encerramento dos trabalhos caso nenhuma captação fosse concretizada.
A situação contrasta com investimentos realizados por determinados regimes próprios de previdência estaduais e municipais em ativos do Master. Em novembro de 2025, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) informou que, conforme os demonstrativos disponíveis naquele período, as entidades fechadas supervisionadas pela autarquia não possuíam posições em ativos do banco.
A informação não esclarece se Previ, Petros e Postalis receberam propostas formais e decidiram rejeitá-las. Para isso, seria necessário verificar documentos de investimento, avaliações de risco e eventuais decisões administrativas dessas entidades.
PF e PGR rejeitaram delação e Lula negou pagamentos
As acusações apresentadas por Vorcaro não avançaram durante as tratativas de colaboração premiada. Segundo a CNN Brasil, integrantes da Polícia Federal avaliaram que os elementos fornecidos pelo ex-banqueiro não reuniam credibilidade mínima, entendimento também atribuído à PGR.
A rejeição da proposta não comprova que todos os fatos relatados sejam falsos, mas indica que as autoridades não consideraram suficiente o material apresentado para sustentar a colaboração nos termos propostos.
Lula negou ter solicitado ou recebido qualquer vantagem financeira de Vorcaro e afirmou não ter autorizado terceiros a receber recursos em seu nome. Alexandre Padilha também negou relação com o ex-banqueiro. Olavo Noleto negou vínculo com Vorcaro e recebimento de valores, conforme manifestações divulgadas pela imprensa.
O ponto ainda sem esclarecimento é se os R$ 30 milhões mencionados por Vorcaro foram efetivamente transferidos, quem teria recebido os valores e quais documentos poderiam comprovar o destino do dinheiro. Os elementos divulgados até agora não demonstram participação de Lula nas negociações nem autorização do presidente para os supostos repasses.
A confirmação dessas informações depende de provas documentais e de novas apurações. Até o momento, as acusações atribuídas ao ex-controlador do Banco Master permanecem sem a comprovação exigida pelas autoridades.