O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, classificou como um “equívoco grosseiro” a decisão dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A declaração foi dada nesta semana. Além disso, ele afirmou que a medida não produz efeitos sobre a legislação brasileira nem altera a estratégia nacional de combate ao crime organizado.
A manifestação ocorre após Washington passar a enquadrar as duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas. Isso ampliou o debate sobre os instrumentos utilizados por diferentes países para enfrentar redes ligadas ao narcotráfico e à lavagem de dinheiro.
A avaliação do chefe da PF expõe uma diferença de entendimento entre Brasília e Washington sobre a natureza dessas organizações criminosas. Enquanto os Estados Unidos adotaram a classificação de terrorismo, a polícia brasileira sustenta posição diferente. Para a PF, as facções operam sob uma lógica distinta, associada principalmente ao lucro obtido por atividades ilícitas.
A discussão ocorre em um momento em que investigações nacionais e internacionais apontam a expansão das operações do PCC e do Comando Vermelho para além das fronteiras brasileiras. Ou seja, rotas de tráfico na América do Sul, movimentação financeira transnacional e conexões com grupos criminosos estrangeiros colocaram as facções no radar de autoridades de diversos países. Assim, tornou o debate sobre cooperação internacional ainda mais relevante.
PF vê diferença entre terrorismo e crime organizado
Ao justificar por que a PF critica decisão dos EUA, Andrei Rodrigues argumentou que organizações terroristas costumam ter motivações ideológicas, religiosas ou políticas. Essas características, segundo ele, não estão presentes no PCC e no Comando Vermelho.
Para o diretor-geral, as facções brasileiras possuem um objetivo central diferente: a obtenção de lucro por meio de atividades ilícitas. Na visão da corporação, essa distinção exige métodos específicos de investigação, inteligência e repressão.
“É um equívoco confundir essas duas realidades porque as estratégias de enfrentamento são diferentes”, afirmou Rodrigues ao comentar a classificação norte-americana.
A manifestação de Andrei ganha peso por partir da principal autoridade da Polícia Federal, órgão responsável por investigações de tráfico internacional, lavagem de dinheiro e cooperação policial com dezenas de países. Na prática, a declaração sinaliza como a instituição enxerga o enquadramento das facções brasileiras no cenário internacional. Também mostra quais estratégias considera mais adequadas para enfrentá-las.
Divergência não impede cooperação com FBI e DEA
Apesar da discordância, Andrei ressaltou que a decisão dos Estados Unidos pode abrir novas possibilidades de colaboração internacional no combate às facções.
Entre as frentes citadas pelo diretor-geral estão:
- Prisão de foragidos da Justiça brasileira em território norte-americano;
- Bloqueio de patrimônios utilizados para lavagem de dinheiro;
- Recuperação de ativos ligados ao crime organizado;
- Ampliação da troca de informações de inteligência.
Segundo ele, parte significativa das apreensões realizadas pela PF já ocorre graças à cooperação com agências dos Estados Unidos. Entre elas, destaca-se o Federal Bureau of Investigation (FBI) e a Drug Enforcement Administration (DEA).
Rodrigues afirmou que operações conjuntas e intercâmbios de dados têm contribuído para localizar criminosos, rastrear recursos financeiros e interromper rotas internacionais do narcotráfico. O fortalecimento dessa cooperação é apontado pela PF como uma das ferramentas mais eficazes para atingir estruturas que atuam simultaneamente em diferentes países.
Classificação dos EUA pode gerar efeitos administrativos
Embora descarte impactos na legislação brasileira, o diretor-geral reconheceu que a nova classificação poderá criar obstáculos burocráticos. Isso ainda depende de regulamentação por parte das autoridades norte-americanas.
Nos Estados Unidos, o enquadramento de grupos como organizações terroristas costuma ampliar instrumentos de rastreamento financeiro, aplicação de sanções e bloqueio de ativos sob jurisdição americana. Embora essas medidas não alterem a legislação brasileira, podem influenciar a forma como autoridades norte-americanas lidam com pessoas, empresas e recursos eventualmente associados às facções.
Segundo ele, ainda não está claro como o governo dos Estados Unidos pretende operacionalizar a medida. Também não se sabe quais órgãos passarão a conduzir os contatos relacionados ao tema. Mudanças administrativas poderão exigir adaptações nos mecanismos de cooperação já existentes entre os dois países.
Nos últimos anos, a PF ampliou ações de descapitalização de organizações criminosas, com bloqueios bilionários de patrimônio, apreensões recordes de drogas e reforço do monitoramento de fronteiras. Para Rodrigues, esses resultados demonstram que a estratégia brasileira continuará baseada em inteligência, cooperação internacional e rastreamento financeiro. Isso será feito independentemente da classificação adotada pelos Estados Unidos para o PCC e o Comando Vermelho.