O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou no domingo (7) um vídeo produzido com inteligência artificial em que associa diretamente o Pix ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entretanto, a peça usa ritmo de funk e coloca o sistema de pagamentos instantâneos como um dos principais símbolos do legado bolsonarista. Isso acontece em meio aos movimentos iniciais da disputa presidencial de 2026.
O vídeo traz versos como “Querem tomar o Pix, mas o povo não deixou” e “foi no governo dele que brotou”, enquanto mostra imagens geradas por IA e um personagem representando Jair Bolsonaro usando uma camisa com a frase “Pix é do Bolsonaro, meu amor”. Nas cenas, o ex-presidente aparece tocando pandeiro e participando de uma roda de samba criada digitalmente. A peça foi publicada por Flávio Bolsonaro em suas redes sociais e posteriormente compartilhada por perfis políticos na plataforma X. A estratégia mira um ativo conhecido por praticamente toda a população bancarizada do país.
A escolha do tema não ocorre por acaso. O Pix se consolidou como uma das ferramentas financeiras mais utilizadas pelos brasileiros e passou a ocupar espaço crescente no debate político. Ao transformar o sistema em slogan eleitoral, Flávio tenta converter uma política pública amplamente aprovada em capital político para o campo bolsonarista.
A escolha do Pix também sinaliza uma mudança de foco na comunicação da direita. Em vez de concentrar a mensagem em pautas ideológicas, a estratégia passa a destacar entregas econômicas facilmente reconhecidas pela população. Com isso, o objetivo é associar realizações percebidas no cotidiano a uma memória positiva de governo. Assim, amplia-se o alcance da mensagem para além do eleitorado tradicional.
Pix Bolsonaro entra no centro da disputa por legado
O lançamento do jingle mostra que a pré-campanha de Flávio pretende disputar não apenas votos. Além disso, busca também a memória política dos eleitores sobre realizações de governos anteriores.
Embora o Banco Central tenha desenvolvido o sistema, o lançamento oficial ocorreu em novembro de 2020, durante a gestão de Jair Bolsonaro. Esse contexto é utilizado pelo bolsonarismo para sustentar a narrativa de que o ex-presidente foi responsável por viabilizar uma das maiores transformações do sistema financeiro brasileiro.
O interesse político pelo tema acompanha a dimensão alcançada pelo sistema. O Pix se tornou o principal meio de pagamento eletrônico do país e movimenta bilhões de reais diariamente. Com isso, consolidou-se como uma das ferramentas financeiras mais presentes na rotina dos brasileiros. Esse alcance ajuda a explicar por que diferentes grupos políticos passaram a disputar sua associação perante o eleitorado.
A aposta da campanha está em associar Bolsonaro a benefícios facilmente identificáveis pela população, como:
- transferências instantâneas;
- pagamentos sem tarifas para pessoas físicas;
- popularização das transações digitais;
- redução do uso de dinheiro em espécie.
IA e funk ampliam alcance da pré-campanha
Outro elemento relevante do vídeo é o uso de inteligência artificial. A tecnologia reduz custos de produção, acelera a criação de conteúdo e aumenta a capacidade de testar formatos com potencial de viralização.
A escolha do funk segue a mesma lógica. O gênero possui forte presença nas plataformas digitais e permite que mensagens políticas sejam distribuídas em formatos próximos aos conteúdos consumidos diariamente por públicos mais jovens.
Mais do que um recurso estético, a combinação entre IA e linguagem de entretenimento busca ampliar a circulação espontânea do conteúdo. Dessa forma, transforma uma peça de campanha em material com potencial de compartilhamento orgânico nas redes sociais.
O lançamento ocorre em um momento em que pré-candidatos começam a testar formatos capazes de romper barreiras de alcance. Além disso, buscam disputar atenção em ambientes digitais cada vez mais fragmentados.
Disputa vai além do jingle
A estratégia não é inédita na política brasileira. Governos de diferentes correntes costumam tentar associar programas e serviços populares às suas marcas eleitorais. A diferença é que o Pix possui alcance praticamente universal entre os usuários do sistema bancário, ampliando seu potencial como ativo de campanha.
A disputa política em torno do Pix já vinha ganhando visibilidade antes mesmo do jingle de Flávio Bolsonaro. Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu em um evento segurando um cartaz com a frase “Pix é do Brasil”, mensagem utilizada pelo governo para reforçar o caráter nacional do sistema de pagamentos. Este episódio mostrou como a ferramenta passou a ocupar espaço também na comunicação política de diferentes grupos.

Ao transformar o Pix em bandeira eleitoral, a campanha também assume o risco de abrir uma disputa pública sobre a autoria da ferramenta. Isso pode levar adversários a destacar o papel técnico do Banco Central e de seus servidores no desenvolvimento do sistema. Desse modo, amplia o debate sobre quem deve receber o crédito pela iniciativa.
Mais do que uma música de campanha, o vídeo evidencia uma disputa que tende a ganhar espaço nos próximos meses. A disputa é pela o reconhecimento de entregas econômicas que continuam produzindo efeitos concretos no cotidiano da população. Nesse cenário, o custo político e o valor eleitoral de cada legado passam a ser tão importantes quanto as propostas para o futuro. Portanto, a memória de governo torna-se um dos terrenos centrais da campanha de 2026.