A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, sofreu uma nova derrota na disputa com o governo de Donald Trump sobre o uso de inteligência artificial pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. Nesta sexta-feira (25), um tribunal federal de apelações manteve uma classificação do Pentágono. O Pentágono considera a companhia um risco à cadeia de suprimentos para a segurança nacional.
A decisão mantém a Anthropic fora do fornecimento de seus modelos para determinados sistemas militares de segurança nacional. A companhia afirmou que discorda do resultado e avalia suas opções jurídicas.
O caso coloca no centro do debate sobre Trump e inteligência artificial uma questão que vai além de uma briga comercial. Afinal, quem deve estabelecer os limites de utilização de uma IA quando a tecnologia é empregada pelo Exército?
Por que Trump e a Anthropic entraram em conflito?
A origem da disputa está nas condições impostas pela Anthropic para o uso do Claude. A empresa sustentou que seu modelo não estava pronto para ser empregado com segurança em armas letais totalmente autônomas ou na vigilância em massa de americanos. Por outro lado, o governo defendia que caberia às autoridades militares decidir quais funções poderiam ser executadas pela tecnologia.
A divergência escalou em fevereiro. Trump determinou que órgãos federais interrompessem o uso da tecnologia da Anthropic. Pouco depois, o então secretário responsável pela Defesa, Pete Hegseth, anunciou medidas contra a empresa. Ele defendeu que o governo tivesse acesso aos modelos para todos os usos considerados legais.
No julgamento desta sexta, o tribunal considerou que o conflito tinha natureza contratual e que o Departamento responsável pela Defesa poderia avaliar os riscos envolvidos na relação com seu fornecedor. A decisão também reconheceu a existência de preocupações de segurança dos dois lados. O governo apontou riscos de modelos excessivamente limitados falharem em operações militares. Entretanto, a Anthropic levantou a possibilidade de sistemas sem essas restrições produzirem alvos inadequados para força letal.
Disputa já atingiu negócios da Anthropic
O conflito também chegou ao caixa da empresa. Documentos judiciais registram que três negócios que somavam mais de US$ 180 milhões deixaram de avançar, apesar de estarem próximos do fechamento. Clientes também reconsideraram relações comerciais com a companhia.
A Anthropic apresentou ainda à Justiça estimativas segundo as quais as medidas poderiam atingir bilhões de dólares de sua receita em 2026, dependendo do alcance das restrições. A projeção é da própria companhia e não representa prejuízo já registrado.
A situação contrasta com a relação que a empresa mantinha anteriormente com Washington. Agências americanas de inteligência e defesa usam o Claude desde 2024. Em julho de 2025, a Anthropic recebeu um acordo de até US$ 200 milhões por dois anos. O objetivo era integrar e aprimorar recursos de IA no Departamento responsável pela Defesa.
Por que a Anthropic venceu em agosto e perdeu agora?
A aparente contradição ocorre porque existem duas contestações relacionadas, mas juridicamente diferentes.
Em 27 de agosto, a juíza federal Rita Lin decidiu a favor da Anthropic em um processo na Califórnia. Ela concluiu que medidas amplas adotadas contra a companhia eram ilegais e que a classificação examinada naquela ação era arbitrária e caprichosa.
O próprio governo argumentou posteriormente que aquela decisão não encerrava a outra disputa, porque as classificações foram adotadas sob leis, procedimentos e alcances diferentes. É justamente essa segunda frente que chegou ao tribunal de apelações e terminou com o revés desta sexta-feira.
A Anthropic permanece, portanto, limitada em parte do mercado militar americano. A disputa também deixa uma questão ainda sem resposta definitiva. Afinal, até onde uma empresa de inteligência artificial pode impor suas próprias restrições quando seus modelos são usados para fins militares?