Netanyahu no poder mesmo derrotado? Eleição em Israel expõe uma brecha política

Netanyahu pode permanecer como primeiro-ministro de Israel mesmo sem maioria parlamentar. Entenda como funciona a formação de governo, os precedentes históricos e as relações comerciais com o Brasil.
Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, aparece ao lado de uma cabine de votação com a bandeira de Israel, em Jerusalém, durante as eleições de 27 de outubro de 2026.
O primeiro-ministro israelense cessante, Benjamin Netanyahu, em um local de votação em Jerusalém, durante as eleições de Israel, em 27 de outubro de 2026. Foto: Yonatan Sindel / Pool AFP via AP.

A eleição em Israel nesta terça-feira (27) pode produzir uma situação incomum para quem acompanha a política brasileira: Benjamin Netanyahu continuar no poder mesmo que seus adversários consigam superar seu bloco nas urnas. Isso porque a votação não escolhe diretamente o primeiro-ministro, e uma eventual derrota parlamentar não determina sua saída imediata do cargo.

O futuro de Netanyahu no poder depende da formação de um novo governo, processo que pode se prolongar por semanas ou meses. A disputa ocorre após os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023 e as guerras subsequentes. O principal adversário do premiê é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses.

Netanyahu no poder sem vencer? A regra que pode prolongar seu governo

Em Israel, os eleitores escolhem representantes para o Knesset, Parlamento composto por 120 cadeiras. Uma coalizão geralmente precisa reunir 61 parlamentares para assegurar maioria absoluta e sustentar o governo.

O presidente Isaac Herzog consulta os partidos eleitos e escolhe um parlamentar para tentar formar uma coalizão. O primeiro indicado dispõe inicialmente de 28 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 14 dias. Caso fracasse, outros parlamentares poderão receber a tarefa. 

Durante esse processo, o gabinete anterior permanece em caráter interino, sujeito a restrições administrativas e jurídicas. Portanto, a continuidade de Netanyahu não significaria uma nova vitória eleitoral nem um mandato renovado.

Uma curiosidade histórica ajuda a explicar essa possibilidade. Em 2009, o partido Kadima conquistou 28 cadeiras, contra 27 do Likud, mas Netanyahu conseguiu formar governo. Em 2021, Naftali Bennett assumiu como primeiro-ministro embora seu partido tivesse apenas sete cadeiras. 

Por que o Brasil tem interesse nessa disputa eleitoral

A diferença institucional é importante. No Brasil, o presidente é escolhido diretamente pelos eleitores, e a sucessão segue prazos constitucionais. Em Israel, a negociação parlamentar posterior à votação determina quem poderá chefiar o governo.

A relação também envolve interesses comerciais brasileiros. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o comércio entre Brasil e Israel alcançou US$ 1,9 bilhão em 2025. As exportações brasileiras somaram US$ 568,6 milhões, enquanto as importações provenientes de Israel chegaram a US$ 1,3 bilhão naquele ano.

Entre os produtos importados, fertilizantes químicos representaram 37,1% do valor das compras brasileiras de Israel em 2025. Isso estabelece uma conexão com o agronegócio nacional, mas não permite afirmar que o resultado eleitoral provocará mudanças nos preços ou no abastecimento. 

O Brasil também mantém uma posição diplomática histórica favorável à solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino, conforme o Itamaraty.

O que acompanhar depois do fechamento das urnas em Israel

A participação eleitoral começou elevada. Segundo a Comissão Central de Eleições, 16,68% dos eleitores aptos haviam votado nas primeiras três horas, o maior comparecimento para esse intervalo desde 1981. 

Entretanto, a mobilização não assegura uma maioria parlamentar. Partidos menores podem influenciar a distribuição de cadeiras, especialmente diante da cláusula de barreira de 3,25% dos votos válidos nacionais.

Se as negociações fracassarem, Israel poderá realizar outra eleição. Entre 2019 e 2022, o país passou por cinco eleições em razão de sucessivos impasses políticos. 

O próximo passo será acompanhar a distribuição das cadeiras e as consultas conduzidas por Isaac Herzog. Até a formação e aprovação parlamentar de um novo gabinete, o governo anterior permanece em funções interinas.

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Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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