A eleição em Israel nesta terça-feira (27) pode produzir uma situação incomum para quem acompanha a política brasileira: Benjamin Netanyahu continuar no poder mesmo que seus adversários consigam superar seu bloco nas urnas. Isso porque a votação não escolhe diretamente o primeiro-ministro, e uma eventual derrota parlamentar não determina sua saída imediata do cargo.
O futuro de Netanyahu no poder depende da formação de um novo governo, processo que pode se prolongar por semanas ou meses. A disputa ocorre após os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023 e as guerras subsequentes. O principal adversário do premiê é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses.
Netanyahu no poder sem vencer? A regra que pode prolongar seu governo
Em Israel, os eleitores escolhem representantes para o Knesset, Parlamento composto por 120 cadeiras. Uma coalizão geralmente precisa reunir 61 parlamentares para assegurar maioria absoluta e sustentar o governo.
O presidente Isaac Herzog consulta os partidos eleitos e escolhe um parlamentar para tentar formar uma coalizão. O primeiro indicado dispõe inicialmente de 28 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 14 dias. Caso fracasse, outros parlamentares poderão receber a tarefa.
Durante esse processo, o gabinete anterior permanece em caráter interino, sujeito a restrições administrativas e jurídicas. Portanto, a continuidade de Netanyahu não significaria uma nova vitória eleitoral nem um mandato renovado.
Uma curiosidade histórica ajuda a explicar essa possibilidade. Em 2009, o partido Kadima conquistou 28 cadeiras, contra 27 do Likud, mas Netanyahu conseguiu formar governo. Em 2021, Naftali Bennett assumiu como primeiro-ministro embora seu partido tivesse apenas sete cadeiras.
Por que o Brasil tem interesse nessa disputa eleitoral
A diferença institucional é importante. No Brasil, o presidente é escolhido diretamente pelos eleitores, e a sucessão segue prazos constitucionais. Em Israel, a negociação parlamentar posterior à votação determina quem poderá chefiar o governo.
A relação também envolve interesses comerciais brasileiros. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o comércio entre Brasil e Israel alcançou US$ 1,9 bilhão em 2025. As exportações brasileiras somaram US$ 568,6 milhões, enquanto as importações provenientes de Israel chegaram a US$ 1,3 bilhão naquele ano.
Entre os produtos importados, fertilizantes químicos representaram 37,1% do valor das compras brasileiras de Israel em 2025. Isso estabelece uma conexão com o agronegócio nacional, mas não permite afirmar que o resultado eleitoral provocará mudanças nos preços ou no abastecimento.
O Brasil também mantém uma posição diplomática histórica favorável à solução de dois Estados para o conflito israelo-palestino, conforme o Itamaraty.
O que acompanhar depois do fechamento das urnas em Israel
A participação eleitoral começou elevada. Segundo a Comissão Central de Eleições, 16,68% dos eleitores aptos haviam votado nas primeiras três horas, o maior comparecimento para esse intervalo desde 1981.
Entretanto, a mobilização não assegura uma maioria parlamentar. Partidos menores podem influenciar a distribuição de cadeiras, especialmente diante da cláusula de barreira de 3,25% dos votos válidos nacionais.
Se as negociações fracassarem, Israel poderá realizar outra eleição. Entre 2019 e 2022, o país passou por cinco eleições em razão de sucessivos impasses políticos.
O próximo passo será acompanhar a distribuição das cadeiras e as consultas conduzidas por Isaac Herzog. Até a formação e aprovação parlamentar de um novo gabinete, o governo anterior permanece em funções interinas.