Internet nas eleições vira impasse no STF após Anatel apontar risco de colapso

A Anatel alertou o STF que liberar irrestritamente a internet móvel durante as eleições pode sobrecarregar as redes. Pedido ainda depende de decisão de Zanin.
Celular próximo a local de votação e representação da Anatel ilustram debate sobre internet nas eleições
Anatel alertou o STF sobre risco de sobrecarga das redes móveis caso haja liberação irrestrita da internet durante o período eleitoral.(Imagem: Editorial).

A possibilidade de liberar o acesso à internet móvel durante as eleições chegou ao STF com uma preocupação prática: o que aconteceria se milhões de usuários aumentassem o consumo de dados ao mesmo tempo? A Anatel alertou que a medida pode provocar congestionamento e até queda do sinal de celular.

O parecer foi enviado ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que analisa um pedido do Partido Verde (PV) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). As entidades defendem acesso à internet móvel nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores a cada turno, mesmo para usuários que tenham esgotado a franquia.

A proposta ainda não foi autorizada. Zanin pediu manifestações antes de decidir sobre a liminar.

Por que a internet liberada pode derrubar o sinal?

A explicação está em uma diferença entre a internet do celular e a conexão fixa. Enquanto redes fixas utilizam principalmente cabos, a rede móvel depende de frequências compartilhadas pelos aparelhos conectados em determinada área.

Na avaliação apresentada pela Anatel, retirar temporariamente os limites de consumo pode fazer usuários concentrarem downloads, vídeos e serviços de streaming nesse período.

Se muita gente fizer isso simultaneamente, a capacidade disponível pode não ser suficiente. A agência chegou a advertir que o aumento do tráfego poderia “levar a um colapso das redes de telecomunicações” e prejudicar a comunicação durante um período considerado relevante para o país.

O tamanho do mercado ajuda a dimensionar a discussão. No segundo trimestre de 2026, o Brasil tinha 276,4 milhões de acessos de telefonia móvel, dos quais 66,1 milhões utilizavam 5G, segundo a Anatel.

70% dos clientes pré-pagos usam principalmente Wi-Fi

Outro dado da própria Anatel ajuda a entender como quem tem plano pré-pago acessa a internet.

Na Pesquisa de Satisfação e Qualidade Percebida 2025, 70% dos clientes de celular pré-pago apontaram o Wi-Fi como principal forma de conexão. Entre os usuários de planos pós-pagos, foram 61%.

A pesquisa ouviu 58.527 consumidores entre julho de 2025 e fevereiro de 2026.

PV e CNTE, porém, apontam outro problema. As entidades argumentam que, quando a franquia de dados acaba, usuários podem ficar restritos aos aplicativos cujo acesso continua disponível sem cobrança.

Segundo os autores da ação, essa limitação dificulta a consulta a diferentes fontes de informação justamente durante o período eleitoral. Por isso, pedem uma conexão mínima e neutra, sem privilegiar determinado aplicativo, conteúdo, candidatura ou fonte.

Internet nas eleições ainda depende do STF

Para o eleitor, nada muda por enquanto. Não há decisão liberando internet móvel gratuita ou ilimitada durante as eleições.

O pedido está nas mãos de Cristiano Zanin e depende da análise da liminar. Antes de decidir, o ministro também solicitou manifestações sobre o tema.

O primeiro turno das eleições ocorre em 4 de outubro. Se houver necessidade de segundo turno nas disputas para presidente ou governador, a votação será realizada em 25 de outubro.

Até uma decisão do STF, portanto, continuam valendo as condições contratadas pelos usuários com suas operadoras. A discussão coloca frente a frente dois argumentos: a tentativa de ampliar o acesso à informação durante a votação e o risco técnico apontado pela Anatel de uma liberação irrestrita aumentar o tráfego e comprometer a rede móvel.

Foto de Eloiza Matarese

Eloiza Matarese

Eloiza Matarese é jornalista do J1 News Brasil, com atuação em Política e Poder. Produz conteúdos estratégicos e analíticos sobre governos, eleições, decisões públicas e articulações institucionais, com olhar investigativo voltado a identificar impactos, contradições e desdobramentos relevantes para o leitor.

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