A conclusão da investigação sobre João Munhoz Neto produziu um quadro diferente daquele que cercava sua prisão em setembro. O namorado de Isabelle Caracristi foi indiciado pela Polícia Civil do Ceará por violência psicológica e obstrução de Justiça, enquanto a suspeita de indução ao suicídio, uma das frentes investigadas inicialmente, não aparece entre os crimes do indiciamento.
A diferença delimita o que efetivamente avançou na conclusão policial. João foi preso em 22 de setembro, deixou a prisão em 1º de outubro mediante medidas cautelares e teve o indiciamento divulgado em 6 de outubro. Em cerca de duas semanas, portanto, o caso passou por três situações jurídicas distintas. Nenhuma delas representa condenação.
A ausência de indiciamento por indução ao suicídio também exige uma distinção. Ela não equivale a uma absolvição, já que não houve julgamento. Significa que, na conclusão do inquérito, a Polícia formalizou contra João as imputações de violência psicológica e obstrução de Justiça.
Relatos e celular sustentam duas frentes diferentes da investigação
Os dois crimes estão relacionados a conjuntos distintos de fatos investigados. No caso da violência psicológica, depoimentos colhidos pela Polícia apontaram que João apresentava comportamento controlador, restringia a liberdade de Isabelle e interferia na rotina da estudante.
Já a apuração sobre obstrução de Justiça se concentra em episódios posteriores à morte. Segundo relato da síndica do condomínio, João chamou o porteiro para procurar o celular de Isabelle nas lixeiras do prédio. Ela também afirmou que ele pediu que familiares da jovem não tivessem acesso ao condomínio naquela noite.
O telefone se tornou, assim, um elemento concreto para compreender a imputação de obstrução apresentada pela Polícia. A defesa rejeita essa interpretação.
“Nosso cliente sempre cooperou integralmente com as investigações. João disponibilizou o telefone de seu irmão para a polícia e a perícia no dia do fato”, afirmou em nota.
Defesa contesta violência psicológica e cita relação de 30 dias
A defesa também rejeitou o indiciamento por violência psicológica e o classificou como “um completo absurdo”. Os advogados afirmam que João tratava Isabelle “com carinho e afeto” e recorrem à duração do relacionamento para contestar a conclusão policial.
“Como um relacionamento tão breve, de apenas cerca de 30 dias, poderia ter gerado o quadro que estão alegando? Acreditamos que há uma tentativa de transferir para o nosso cliente problemas e questões que ela muito provavelmente já vivia anteriormente”, diz trecho da nota.
A versão diverge dos relatos considerados pela investigação sobre controle da rotina e restrição da liberdade da estudante. Há também testemunhos que não relatam conflitos. A diarista que trabalhava na residência, por exemplo, informou por meio de sua advogada que nunca presenciou discussões entre o casal.
A advogada Lídia Aguiar também negou que a cliente tenha limpado o apartamento após a morte. A diarista esteve no imóvel dois dias depois, mas, segundo a representante, deixou o local quando soube do ocorrido.
Mais de 700 vídeos antecederam conclusão do inquérito
A conclusão veio após uma apuração que reuniu depoimentos, imagens e perícias. Até 28 de setembro, 28 pessoas haviam sido ouvidas e 13 análises periciais concluídas. Ao todo, 20 peritos e auxiliares de perícia atuaram no caso, enquanto mais de 700 vídeos foram analisados ou reunidos para análise.
Esses números dimensionam o material reunido durante a investigação, mas não significam que todos os depoimentos, vídeos ou perícias tenham servido de fundamento para cada um dos dois indiciamentos. A apuração foi conduzida pelo Grupo Especial de Investigação, com participação de equipes da Polícia Civil.
Com João Munhoz indiciado, o caso entra agora em outra etapa. Ele permanece em liberdade submetido a medidas cautelares, incluindo monitoramento eletrônico, distanciamento dos familiares de Isabelle e proibição de se ausentar da comarca.
Com a conclusão do inquérito, o material segue para análise do Ministério Público do Ceará. É nessa próxima fase que será avaliado eventual oferecimento de denúncia à Justiça. Até lá, violência psicológica e obstrução de Justiça permanecem como imputações da investigação policial, sem condenação de João Munhoz.