O apoio de Augusto Cury a Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 envolve um eleitorado de mais de 3,4 milhões de pessoas. Apesar da declaração pública e de um compromisso assinado pelo senador, não há garantia de que os votos recebidos pelo escritor migrem para o candidato do PL na disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Candidato pelo Avante, Cury terminou o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, na terceira posição, com 3.448.569 votos, equivalentes a 2,89% dos votos válidos. O total supera a diferença registrada entre os dois finalistas, mas a escolha do escritor não determina como seus eleitores votarão em 25 de outubro.
Apoio de Augusto Cury não garante transferência de votos
O peso numérico desse eleitorado ganha relevância diante do resultado do primeiro turno. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A distância entre ambos foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos, inferior ao total obtido pelo escritor.
A comparação, porém, tem um limite: os 3,4 milhões de votos de Cury não representam um bloco eleitoral automaticamente transferível. Cada eleitor pode acompanhar a indicação, escolher outro candidato ou votar em branco ou nulo.
Uma pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (8) ajuda a compreender essa divisão. Entre os entrevistados que votaram em Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema no primeiro turno, 46% declararam intenção de votar em Flávio Bolsonaro, 32% indicaram Lula e 15% escolheram branco ou nulo.
Os percentuais abrangem conjuntamente os eleitores das quatro candidaturas eliminadas. Por isso, não permitem identificar isoladamente quantos apoiadores de Cury pretendem seguir sua orientação.
Datafolha aponta diferença estreita entre Flávio e Lula
Realizado entre 6 e 7 de outubro, com 2.520 entrevistados, o levantamento registrou 49% das intenções de voto totais para Flávio Bolsonaro, contra 45% para Lula. Considerando apenas os votos válidos, os percentuais foram de 52% e 48%, respectivamente.
A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e registro no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-02949/2026. Os resultados refletem as preferências declaradas durante a coleta, sem determinar o resultado da votação.
Cury exige compromisso escrito e Flávio confirma assinatura
O apoio também envolveu compromissos programáticos. Segundo o Metrópoles, Augusto Cury e Flávio Bolsonaro conversaram por videochamada nesta quinta-feira (8). Durante o contato, o escritor solicitou que o senador assumisse compromissos por escrito.
Em transmissão ao vivo, Flávio elogiou o ex-adversário e relatou a primeira conversa entre ambos. “Hoje eu tive uma conversa muito legal com o Augusto Cury, uma pessoa que nunca tinha parado para trocar uma ideia. Foi uma surpresa muito agradável, deixou uma impressão muito boa”, declarou.
O senador confirmou que recebeu e assinou o documento. “Ele me encaminhou um termo de compromisso público com o Brasil, tem 100% de concordância, eu assinei”, afirmou. A assinatura formaliza a concordância declarada por Flávio, mas não comprova a execução das propostas nem sua incorporação definitiva ao programa eleitoral.
Entre os compromissos mencionados na cobertura estão propostas relacionadas à telemedicina, ao financiamento de microempresas, à agricultura e ao uso de tecnologia no enfrentamento da violência contra as mulheres. A implementação dependeria de decisões posteriores e das condições legais aplicáveis.
Apesar do entendimento, Cury descartou participar de um eventual governo. “Tive uma longa conversa com Flávio, olho no olho, sem filtros e sem rodeios. Disse-lhe claramente que não participaria do seu governo e que minha independência de pensamento seria inegociável”, afirmou.
A decisão representa uma mudança em relação à campanha do escritor, que se apresentou como alternativa à polarização entre Lula e Flávio. Cury afirmou que o apoio não envolve negociação de cargos, privilégios ou vantagens pessoais e que continuará cobrando os compromissos assumidos pelo candidato do PL.
Com a assinatura do documento, Flávio obtém o apoio político de Cury e assume publicamente compromissos apresentados pelo escritor. O efeito eleitoral dessa aproximação, entretanto, permanece desconhecido. A dimensão efetiva da adesão dependerá das escolhas individuais dos eleitores no segundo turno, marcado para 25 de outubro.