Avanço da USP pode reduzir fila de 48 mil por transplantes no Brasil

A USP realizou a primeira clonagem de um porco no Brasil, avanço que pode viabilizar o xenotransplante. A técnica busca produzir órgãos compatíveis com humanos e reduzir a fila de 48 mil pacientes que aguardam transplantes no país.
Porco clonado em laboratório da USP durante procedimento de pesquisa em xenotransplante no Brasil - Foto: Reprodução/ Jornal Nacional
Pesquisadores da USP realizam procedimento com porco clonado em estudo que pode viabilizar transplantes no Brasil - Foto: Reprodução/ Jornal Nacional

Cerca de 48 mil brasileiros aguardam hoje por um transplante de órgão sem previsão — e o avanço do xenotransplante no Brasil já começa a mudar esse cenário. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram a técnica que abre caminho para produzir órgãos compatíveis com humanos no próprio país.

A equipe realizou a clonagem do primeiro porco no Brasil em um laboratório em Piracicaba (SP). Com isso, o experimento deixa de ser apenas um marco científico e passa a representar um passo concreto para transformar a lógica da fila de transplantes — que ainda depende da escassez de doadores.

Em outras palavras, os cientistas buscam resolver um problema estrutural: a falta de órgãos disponíveis.

O que é xenotransplante no Brasil e por que ele pode mudar a medicina

O xenotransplante no Brasil consiste na transferência de órgãos entre espécies diferentes — neste caso, de porcos para humanos.

Isso acontece porque os suínos possuem órgãos com tamanho e funcionamento semelhantes aos humanos. Além disso, eles se reproduzem rapidamente, o que permite produção em escala. Dessa forma, a técnica surge como alternativa direta à limitação de doadores.

Se os testes avançarem, o impacto será imediato. Em vez de depender exclusivamente da doação, o sistema de saúde poderá contar com uma fonte controlada de órgãos.

Por que isso ainda não é realidade

Apesar do avanço do xenotransplante no Brasil, a técnica ainda enfrenta um obstáculo central: o organismo humano rejeita órgãos de outras espécies.

No passado, esse problema interrompeu pesquisas iniciadas na década de 1960. No entanto, a ciência mudou esse cenário.

Pesquisadores identificaram três genes responsáveis pela rejeição aguda e passaram a desativá-los. Ao mesmo tempo, inseriram sete genes humanos nos óvulos dos porcos, o que aumenta a compatibilidade dos órgãos.

Com isso, os cientistas reduziram significativamente o risco de rejeição — embora ainda não o tenham eliminado completamente.

Onde entra a clonagem nesse processo

A clonagem cumpre um papel essencial dentro do xenotransplante no Brasil, porque garante repetição e escala.

Na prática, os pesquisadores precisam reproduzir animais com as mesmas características genéticas. Sem isso, não há segurança nem padronização para uso médico.

Por isso, ao dominar a clonagem, a equipe consegue criar cópias com o mesmo perfil biológico — o que viabiliza futuras aplicações clínicas.

No experimento da USP, o porco clonado nasceu saudável, com 2,5 kg, após várias tentativas. Ainda assim, a taxa de sucesso global varia entre 1% e 5%, o que mostra o nível de dificuldade da técnica.

O que pode dar errado — e o que ainda precisa ser testado

Apesar do avanço, os cientistas ainda não aplicam essa tecnologia em pacientes.

Agora, os pesquisadores precisam conduzir estudos pré-clínicos e clínicos para testar:

  • a segurança dos órgãos
  • a durabilidade no corpo humano
  • as reações imunológicas

Além disso, órgãos reguladores precisarão aprovar protocolos e validar o uso da técnica.

Portanto, embora o caminho esteja mais definido, a aplicação em larga escala ainda depende de testes rigorosos.

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Por que isso pode mudar o acesso à saúde no Brasil

O avanço do xenotransplante no Brasil pode transformar o acesso à saúde, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, o país depende majoritariamente da doação de órgãos — um modelo limitado e imprevisível. No entanto, a produção controlada pode mudar essa lógica.

Além disso, desenvolver essa tecnologia no Brasil reduz a dependência de soluções importadas, que tendem a ter custo elevado.

Como resultado, o SUS pode ampliar o acesso a transplantes e reduzir o tempo de espera.

No cenário atual, milhares de pacientes vivem sem previsão. Por outro lado, se a técnica se consolidar, o sistema poderá oferecer órgãos de forma planejada.

Na prática, isso significa substituir a escassez por disponibilidade — e aumentar diretamente as chances de sobrevivência de quem aguarda na fila.

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Jussier Lucas

Jussier Lucas é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e repórter do J1 News Brasil. Atua na cobertura de política, atualidades e temas de interesse público, com experiência em reportagem, comunicação pública e assessoria de imprensa na TV Universitária (TVU) e no TRE-RN.

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