Há quatro dias, o Peru acompanha uma das apurações presidenciais mais apertadas de sua história recente. Às 0h42 desta quinta-feira (10), com cerca de 98% das urnas contabilizadas, Keiko Fujimori assumiu uma vantagem de apenas 651 votos sobre o deputado de esquerda Roberto Sánchez. Portanto, segue indefinido quem comandará o país pelos próximos cinco anos.
A candidata do partido Força Popular aparece com 50,001% dos votos válidos, enquanto Sánchez, do Juntos pelo Peru, soma 49,999%. A diferença mínima mantém o país em suspense. Além disso, prolonga a espera pelo resultado oficial em uma eleição que mobilizou 27,33 milhões de eleitores aptos a votar.
Mais do que uma disputa voto a voto, o resultado evidencia a fragmentação política de um país que enfrenta uma longa sequência de crises institucionais. Desde 2016, o Peru teve nove presidentes em dez anos, cenário marcado por renúncias, processos de impeachment e sucessivas mudanças de governo.
A indefinição também ocorre em meio a uma profunda crise de confiança pública. Pesquisas recentes indicam que cerca de 90% dos peruanos demonstram pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso. Enquanto isso, apenas 10% afirmam estar satisfeitos com o funcionamento da democracia. Além da desconfiança popular, o próximo presidente herdará um ambiente político fragmentado. Isso é resultado de anos de confrontos entre Executivo e Legislativo.
Como a disputa virou ao longo da apuração
Os primeiros dados oficiais foram divulgados por volta das 22h de domingo (7), quando Keiko Fujimori apareceu cerca de cinco pontos percentuais à frente de Roberto Sánchez.
Com o avanço da contagem, a diferença diminuiu rapidamente. Por volta das 7h de segunda-feira (8), a vantagem da candidata conservadora já era inferior a um ponto percentual. Horas depois, às 13h07 no horário local, Sánchez ultrapassou a adversária e passou a liderar a apuração.
A virada voltou a ocorrer nos dias seguintes. Com a entrada de novos lotes de votos contabilizados, especialmente do exterior, Keiko retomou a dianteira. Assim, chegou à madrugada desta quinta-feira com vantagem de apenas centenas de votos.
Votos do exterior ganharam peso decisivo
Enquanto a apuração nacional já supera 98%, a contagem dos votos registrados fora do Peru segue em ritmo mais lento. Segundo a autoridade eleitoral, apenas 67,36% dessas cédulas haviam sido processadas.
Nesse universo, Keiko Fujimori mantém ampla vantagem, com 62,46% dos votos contra 37,54% de Roberto Sánchez. Como a diferença nacional é inferior a mil votos, a entrada gradual dessas cédulas passou a ter peso decisivo sobre o resultado. Então, isso ajuda a explicar a recuperação da candidata após o adversário liderar parte da apuração.
A autoridade eleitoral peruana informou que o resultado oficial ainda pode demorar vários dias para ser concluído. Diferentemente de sistemas totalmente eletrônicos, a votação no país é realizada por meio de cédulas de papel. Isso torna a contagem mais lenta e prolonga a indefinição.
O que a eleição revela sobre a crise política peruana
O segundo turno de 2026 ocorre após uma eleição historicamente pulverizada. O Peru registrou 35 candidatos à Presidência no primeiro turno, número recorde que evidenciou a fragmentação partidária e a dificuldade de formação de maiorias políticas estáveis.
Keiko Fujimori chegou à etapa decisiva após conquistar 17,2% dos votos válidos. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela disputa a Presidência pela quarta vez. Ela tenta encerrar uma sequência de derrotas registradas nos segundos turnos de 2011, 2016 e 2021.
Já Roberto Sánchez avançou ao segundo turno com 12% dos votos. Ele construiu sua base eleitoral principalmente em regiões rurais e áreas afastadas dos grandes centros urbanos. A disputa também reflete uma divisão territorial do país: enquanto Keiko concentra apoio mais forte em áreas urbanas e entre peruanos residentes no exterior, Sánchez encontrou respaldo nas regiões mais distantes do poder econômico e político peruano.
Independentemente de quem vencer, o próximo presidente assumirá um país marcado por baixa confiança institucional, forte fragmentação partidária e dificuldades para construir estabilidade política. A eleição decidida por poucas centenas de votos tornou-se mais do que uma disputa entre dois candidatos: transformou-se em um teste para a capacidade do Peru de reconstruir governabilidade após uma década marcada por crises, trocas sucessivas de presidentes e desgaste da confiança pública nas instituições.